william bonner e o fosso entre academia e mercado

22 10 2009

Tempos atrás, a visita de um profissional a uma universidade seria um episódio restrito apenas a quem o presenciasse. Por mais ruidosa que fosse a passagem, alunos e professores discutiriam nos corredores, e o fato seria armazenado na memória de quem o testemunhasse. Bem, eu disse “tempos atrás”. Hoje é diferente, e as muitas possibilidades tecnológicas de compartilhamento de informação, conhecimento e experiência soterram qualquer tentativa de esquecimento voluntário.

Acontecimento recente ajuda a ilustrar essa nossa obsessão por lembrar: no início do mês, o apresentador e editor-chefe do Jornal Nacional William Bonner palestrou na Universidade de Brasília e causou ranger de dentes com as críticas que fez aos cursos de Jornalismo brasileiros. Segundo relatou a professora Zélia Adghirni, publicado originalmente no Observatório da Imprensa, Bonner disse que as escolas de Jornalismo “não servem para formar jornalistas” e que elas “deveriam se preocupar mais com o ensino de Português e História. Para o resto, a universidade serve apenas como experiência de vida”. Conforme conta a professora, o editor-chefe foi categórico em afirmar que “jornalismo se aprende no mercado”, e que nem mesmo técnicas de redação e ética profissional seriam bem oferecidas nesses momentos de formação.

Bonner, contextualiza a professora Zélia, disse tudo isso, após a já esperada pergunta de estudantes acerca do fim da obrigatoriedade do diploma para a área. O auditório da UnB estava lotada, e fora dele, um telão retransmitia a palestra do jornalista. Ainda segundo o relato da professora, Bonner teria dito que “em seis meses, eu pego um estudante e faço dele um editor na Globo”, transformação que poderia fazer de um taxista em jornalista.

Como eu disse, a passagem de Bonner pela UnB – por ocasião da turnê de lançamento de seu livro “Jornal Nacional – Modo de Fazer” – provocou ranger de dentes, que não ficaram apenas nos longos corredores da Universidade de Brasília, mas se espalharam feito rastilho de pólvora na blogosfera e em listas eletrônicas de professores e alunos.

O fosso

Não, eu não estava na palestra de Bonner. Mas confio no relato da professora Zélia, a quem conheço e respeito. E a julgar pelo teor do que foi dito, a passagem foi desastrosa. Não porque eu não concorde com o jornalista, afinal isso pouco interessa. Mas porque declarações como aquelas só fazem aprofundar e alargar um abismo entre academia e mercado, entre universidade e empresas. Aliás, é histórica a existência desse fosso separando duas instâncias que poderiam muito bem dialogar mais. Há muito tempo, assisto a demonstrações mútuas de ojeriza. Há anos, vejo gente na academia torcendo o nariz para o mercado, e gente do mercado bufando diante de professores da área. Não é, portanto, meramente ilustrativo o que digo sobre um fosso. Ele existe, e perdura e, ciclicamente, se expande.

Por contraste geológico, o desprezo manifesto por Bonner pela formação oferecida nas escolas é só a ponta do iceberg de uma relação de estranhamento que não contribui para o avanço do jornalismo profissional nem para os processos formativos de repórteres, editores e redatores. Isto é, ninguém ganha com isso. O mercado não se beneficia com os debates, as pesquisas, as soluções encontradas na academia, e esta se alija do que acontece no mundo competitivo, cruel, real e complexo a que as empresas estão habituadas. O setor produtivo não dialoga com o mundo da reflexão. A massa pensante tapa os ouvidos para a gente que faz. Claro que estou me apegando aos rótulos que se impuseram esses lados da equação, mas não estou muito longe do que influentes e importantes setores pensam acerca de si e de outrem.

O fato é que temos uma zona de atrito entre academia e mercado que – de forma muito prática – interessa a poucos. Interessa a quem se imagina como o centro do mundo, como quem está indisposto ao diálogo e à construção de caminhos.

Saídas?

Não defendo um pacto artificial entre as partes, nem ao menos a capitulação de suas posições. A academia não precisa pensar como o mercado, mas não pode ignorá-lo. Também não é prudente ou recomendável que as empresas, por sua vez, dêem de ombros para o que se pensa e se produz nas escolas. Se os cursos de Jornalismo estão ruins, é preciso encontrar maneiras de aperfeiçoá-los, se os produtos jornalísticos têm qualidade duvidosa, deve-se perseguir parâmetros melhores, refletindo sobre a prática, sobre rotinas produtivas, fluxos informativos, procedimentos operacionais, adoção de novas tecnologias…

São bem-vindas iniciativas como o da Globo Universidade, de aproximar seus quadros profissionais e empresas às escolas. Bem como é oportuna a criação de cátedras específicas, como a Cátedra RBS da UFSC. Repórteres, redatores, produtores, editores precisam transitar pelas universidades, palestrando ou fazendo cursos. Professores e alunos devem fazer visitas técnicas nas empresas, onde se pode colher dados para estudos de caso. Isto é, as saídas para a redução do fosso entre academia e mercado passam incontornavelmente pelo diálogo e pela disposição. Em outros países, a tensão empresas-universidade é menor, e o encaminhamento dos recém-formados aos postos de trabalho é um processo natural, não-traumático.

O manual e Homer

A academia se gaba de querer pensar criticamente as práticas do mercado. Que continue a fazê-lo, mas que também ofereça exemplos práticos de como aperfeiçoar processos e produtos jornalísticos. Isto é, que as práticas laboratoriais sirvam não apenas para reproduzir comodamente o que vem dando certo por aí, mas também simulem os desafios para a busca da experimentação e inovação, e contribuam para habituar os alunos a um ritmo profissional de produção.

O mercado alardeia que recebe jovens profissionais despreparados e que os “salva” na correria do dia-a-dia. Isso não é totalmente verdadeiro, e nos casos em que é, as empresas podem contribuir para que os cursos sejam melhores. Alguns grupos empresariais oferecem cursos internos de formação que muito se assemelham a períodos de treinamento e adestramento. Na ânsia de preparar seus quadros, as empresas formatam, engessam, restringem. Ultimamente, na mesma direção, tem sido lançados livros que atuam como suporte a esses cursos. “Jornalismo Diário”, de Ana Estela de Sousa, é um exemplo disso. O livro – que tem suas qualidades – segue a mesma receita já empregada pela Folha de S.Paulo em seu Manual de Redação: sabemos fazer jornalismo e só nós sabemos. Por isso, sigam as nossas regras e você estará fazendo jornalismo.

Isso não é dito literalmente, mas a leitura do volume permite entrever o quanto se despreza a academia e as linhas que guiam os cursos acadêmicos. Articulado ao programa interno de formação, do qual a autora é responsável, o livro é outra forma do monólogo que aprofunda a fissura entre academia e mercado.

O livro de William Bonner não é endereçado a estudantes de Jornalismo ou a professores. O timbre didático que ele assume do começo ao fim sinaliza que seu público é maior, na direção da audiência do telejornal mesmo. A preocupação com explicações técnicas é tão grande que o leitor pode se constranger pela rasura de alguns trechos. Como se o leitor fosse Homer Simpson. A comparação é minha, mas não é gratuita. Em 2005, Bonner se viu envolvido num incidente que ajudou a macular sua imagem, pois teria comparado o telespectador médio do JN ao personagem do desenho animado. A aproximação foi “denunciada” pelo professor Laurindo Lalo Leal e causou ressentimentos de parte a parte. Bonner alegou ter sido mal interpretado.

No final de “Jornal Nacional – Modo de Fazer”, o autor vai à forra e desenterra o assunto para um acerto de contas com Lalo Leal. Sob o pretexto de tratar da clareza como um valor a ser perseguido no telejornal, Bonner conta a sua versão do incidente e contrapõe, inclusive, declarações de colegas do professor para contestá-lo. Bonner não segura o rancor, e mesmo que em poucas páginas – e como na UnB – alarga ainda mais o fosso entre academia e mercado.


Ações

Informações

10 respostas

22 10 2009
Joel Minusculi

Vale lembrar que William Bonner não é formado em Jornalismo e sim Publicidade e Propaganda (outra profissão com o diploma não reconhecido).

22 10 2009
everton maciel

Deixa eu repetir pra ficar bem gravado: a faculdade não forma jornalistas. Bonner é um jornalista, formado em PP. A maioria dos publicitários do mundo moderno – chamados de assessores de imprensa – saem das faculdades de Jornalismo. Lamento. Jornalista é jornalista. Bacharel e comunicação social pode vir a ser jornalista. Não necessariamente. O mundo real espera, com ansiedade, por vocês. Serão bem-vindos.

22 10 2009
iaiá

muito bom o texto. e o fosso se repete em outras áreas acadêmicas, Direito, Administração, TI, Letras, Economomia, e seria grande a lista… como eu presencio e sei através de vários amigos.

22 10 2009
Pedro

Professor, permita-me discordar em um ponto de seu texto. Entendo ser importante a proximidade entre academia e mercado, teoria e prática. No entanto, como estudante que cursou a Cátedra RBS no curso de Jornalismo da UFSC, minha opinião é de que esse tipo de proximidade do mercado, que passa a se instaurar dentro da grade curricular – ainda que seja em uma disciplina optativa – é muito perigosa. Tal disciplina servia como programa de curiosidades sobre o dia-a-dia de profissionais do grupo RBS e um exemplo de atuação na academia de um grupo monopolista da mídia catarinense. Acho importante que se tenha matérias práticas no curso e que o jornalista que saia da Universidade esteja de alguma forma em sintonia com o que se produz no mercado – sempre com o posicionamento crítico que a academia promove e que, via de regra, o mercado aniquila. Agora, mais importante, é o estudante-jornalista que saia da Universidade com uma formação, com conteúdo que vá além das técnicas que o mercado pode facilmente ensinar. Trata-se de não sairmos como um “apertador de botões”, coisa que matérias como a Cátedra RBS, além das implicações políticas, insistem em querer promover.

22 10 2009
rogério christofoletti

Obrigado, Pedro, pelo comentário.

Obrigado também, Iaiá.

Não entendi bem o que quis dizer, Everton…

Valeu, Joel, pelo complemento.

24 10 2009
Zelia Leal Adghirni

Agradeço as considerações relativas ao meu artigo que, infelizmente, foi tão mal compreendido por muitos leitores do Observatório. Quero também parabenizá-lo pela clareza de seu texto ao abordar questão tão complexa. Ao analisar a questão do fosso entre o mercado e a universidade você aponta para uma saída que venho defendendo há muito tempo dentro da academia. Justamente por ter vivido quase duas décadas nas redações, acho que temos que dialogar. O que não concordo, absolutamente, é o tom de arrogância como as empresas nos tratam, com um ar de superioridade como se vivessemos nas trevas. Por isso gostei do comentário curto e incisivo da professora Sylvia Moretzhon quando ela pergunta : E tem alguem da universidade que vai dar palestra na Globo ?
Gostei muito de sua página. Vou acompanha com mais assiduidade.

24 10 2009
Julio Castellain

Olá RC…
Sempre com ótimas reflexões…
abraços!

3 11 2009
Leonardo Concon

Concordo em partes com Bonner. Também não sou formado em Jornalismo, mas exerço a profissão há 30 anos, vivendo desde a tipografia, passando para a linotipia, fotocomposição…até chegar ao PC e, voilà, à blogosfera do jornalismo digital. Sou do tempo do jornalismo-ideologia, das palavras-de-ordem, Pasquim, Realidade, Repórter, Movimento…bons tempos, fazíamos ‘revoluções’ em mesas de bar..rs.. ditadura de 64, censura, AI-5, Lei de Imprensa… E daí, fui obrigado a ser autodidata, devorando livros, manuais, ouvindo, lendo, comparando e treinando.

Eu já trabalhei em grandes empresas, em governos. Meu grande trabalho foi no Estadão, em outubro de 1980, ao sugerir a pauta e ser o primeiro repórter da série Detrans, com A Rede que Vende Carta, via Corrupção, culminando com a descoberta do ícone da geração: Miguelzinho do Detran. Nessa época, eu era correspondente do jornal em Araçatuba (SP), dois meses de contratação. Fui para o 6° andar no Limão, em SP. Vi jornalistas formados de longa data inconformados: “Como pode um jovem de 22 anos, sem formação, passar à nossa frente?” E, passei, modéstia à parte. Fui repórter especial cobrindo “As Mordomias do Maluf”.

Não parei mais. Me orgulho de ter uma carreira profissional excelente. Hoje, numa cidade do interior paulista, Olímpia, trabalho em um semanário e faço um blog (Blog do Concon) informando fatos da cidade, região e do que interessar.

O jornalismo ‘tá no sangue’ tem de ser aperfeiçoado, é claro, com História, Português, cultura geral, informática etc. O que se discute, creio, é a qualidade dos cursos das faculdades de jornalismo. Conheço gente perto de mim que está até fazendo pós em jornalismo e escreve assessoria com C ou Ç. É o caso: existem grandes juristas e existem os advogados ‘porta de cadeia’. Existem os grandes jornalistas, editores, e existem os que fizeram por opção de vestibular.

Tudo depende, em primeiro lugar, do talento. Depois, da força de vontade. E, se for o caso, da qualidade do que se ensina. E, por fim, da qualidade daquele que quer aprender. É por isso que o jornalismo como tal está fadado à morte face ao compartilhamento de informações em tempo real.

Se fosse para começar tudo de novo, repetiria. E sem a faculdade. Sinto muito.

Abraços,
Leonardo Concon

3 11 2009
Samira

O fosso não existe somente entre mercado e academia (com algumas pontes de madeira), mas dentro da própria academia, entre alguns professores/alunos e alunos para alunos.
Sou adepta da linha teórica; acredito no estudo científico como base crítica para que o estudante, após formado, aplique a técnica sem deixar de lado a reflexão, porém sinto que entre os próprios pares na academia muitas vezes a linha científica é incompreendida. Optei por monografia durante a elaboração de meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e muitos acharam perda de tempo. Ainda assim, acredito na formação superior em jornalismo. A faculdade, por si só, não forma o profissional (de qualquer graduação), isso em partes é verdadeiro. Afinal é o estudante que deve ir além, buscar estudos aleatórios, cursos, projetos, muito mais do que só os mandos dos professores. Em contrapartida, alguns mestres continuam crendo que o arroz-com-feijão praticado nas redações, mesmo com os vícios, é que devem ser repassados aos alunos.
Outro ponto, além do texto muito bem discorrido por sinal, é que as disciplinas teóricas e humanísticas estão perdendo espaço para as técnicas. Psicologia, Sociologia, História, que tanto engrandecem em conhecimento e crítica (não tirando o mérito das disciplinas técnicas) estão sendo suprimidas das grades curriculares de muitos cursos espalhados pelo Brasil. Isso é um retrocesso ao ensino superior em jornalismo.
Enfim, existe um fosso dentro da própria academia e cabe uma discussão em todas as faculdades para que uma ponte seja construída.
Parabéns pelo blog e pelo artigo.

15 11 2009
Heitor Monteiro Lima

Para Willian Bonner
Assisti numa ediçao do JN, comentario de disparidade entre numero de eleitores na criaçao de municipios. Tenho um levantamento semelhante no RS e resposta esdruxulas do TRE.
Se hover interesse solicite.
Heitor

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