contando com o ovo lá…
14 11 2009Comentários : Deixar um comentário »
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é hoje mas é amanhã também
13 11 2009Sim, hoje é sexta-feira, 13.
Mas Jason aparecerá amanhã, quando o Tricolor for enfrentar o Vitória, cujo nome anda meio incongruente…

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o muro caiu e aí…
9 11 2009Hoje, faz vinte anos que o Muro de Berlim ruiu, iniciando ao menos que simbolicamente uma nova era e fechando o século XX.
Não vou fazer nenhuma análise histórica porque não sou historiador. Prefiro lembrar o trailer de “Adeus Lênin”. Nesta produção, um filho faz de tudo para que a mãe comunista que voltou do coma não descubra que a Alemanha está se reunificando. Ele teme que ela enfarte novamente e não resista. Então, faz milagres para tornar um apartamento de 79 metros quadrados o último refúgio da Alemanha Oriental.
Sensível, engraçado, inteligente, o filme é uma boa maneira de se ver a que nos apegamos para ter o pé na realidade…
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tricolor vence o santos e…
25 10 2009… volta à disputa pelo campeonato.
Depois de 4 a 3 lá na Vila Belmiro, ele está de volta.

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sábado: running
17 10 2009Eliane Elias é uma das artistas brasileiras com carreira mais sólida no jetset do jazz norte-americano.
Como é sábado, como chove lentamente, e como não posso parar, ofereço esta belíssima e contagiante “running”, cuja letra não me sai da cabeça…
Follow the silence
Far from the sadness
Leave all the madness behind
I`ll keep on moving
I`ll keep on running
Passing through hallways
Of who I`ve become
I`ll keep on driving
Into the darkness
Not scared of loving
Turn my lights on
Cause where I`m from
We carry on
And keep on living
And keep on running
Running towards
What I`ve been running from
Ouça!
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tempos de paz: entre cinema e teatro
12 09 2009Fiquei fascinado ao assitir “Tempos de Paz”, filme que chegou aos cinemas esta semana e que é, na sua despretensão, uma das mais interessantes realizações brasileiras desde o “Cheiro do ralo” (2007), por exemplo.
É claro que os dois filmes não têm nenhum parentesco, nada que os aproxime do ponto de vista temático ou estético. Enquanto o “Cheiro…” é um exercício de estilo, transgressivo e moldado a ser um cult para certos públicos, “Tempos de Paz” é muito mais um exercício de linguagem, de realização de um cinema mais maduro e consistente nas suas bases.
E essa diferença se dá fundamentalmente porque “Tempos de Paz” é uma versão cinematográfica de uma peça de teatro. Aliás, um texto sensacional, maravilhoso, apontado por boa parte da crítica como o melhor texto do começo do século XXI no país. Do finalzinho de 2001, o texto assinado por Bosco Brasil tem um título mais longo, próprio mesmo do meio: “Novas diretrizes em tempos de paz”. A história não é rocambolesca e não há uma abundância de personagens, pelo contrário. É a justeza, a singeleza e a profundidade de abordagem que tornam o enredo incontornável, insuperável.
Na trama, estamos em abril de 1945. A Segunda Guerra Mundial está no fim, e as forças européias aguardam o armistício. No Brasil, Vargas está no poder, e o Rio de Janeiro ainda é a capital federal. Lá, desembarcam diariamente hordas de refugiados do nazismo e dos horrores da guerra. Um deles é o polonês Clausewitz, que anseia começar uma nova vida no Brasil, onde se fala uma “língua macia, falada apenas por bebês e idosos, por gente que não tem dentes”.
Clausewitz aprendeu o português, mas na imigração, essa condição e outras contradições despertam a suspeita de um burocrata amargurado, embrutecido e descartado pelo sistema. É dele, Segismundo, que Clausewitz depende para receber o visto de permanência no Brasil, e os dois vão travar uma terceira guerra de palavras, aproximando dois mundos e duas vidas separadas pela língua, pela cultura, pelo destino.
Como se vê, não é um filme de ação, mas de reflexão, de emoção. Daí a importância da realização de Daniel Filho, talvez o homem mais importante do cinema nacional hoje, por trás de sucessos de bilheteria como “Se eu fosse você” (1 e 2), “A partilha”, entre outros. Daniel Filho atua, dirige, produz e, de forma naturalmente gregária, reúne em torno de si os melhores profissionais nos desenhos mais comercializáveis do produto cinematográfico. “Tempos de Paz” não deve se tornar um caminhão de dinheiro como “Se eu fosse você 2″, mas é justamente o sucesso arrasador deste que permite e dignifica a execução de um projeto como o de “Tempos…” Com isso, Daniel Filho marca mais uma vez o seu nome na história do cinema nacional, agora com coragem e maturidade.
Mas a importância de “Tempos de Paz” está também na transposição, na tradução, no trabalho de versão de linguagens. O texto é, como já disse, originalmente uma peça teatral, tem o tempo dos palcos, a ação dramática como base, os diálogos fortes e bem cortados como alicerce, o espírito das coxias. Para não perder em substância ou forma, o diretor convidou o próprio Bosco Brasil para escrever o roteiro, o que se revelou na melhor opção. Ajustes foram feitos do ponto de vista formal, permitindo que o público respire de vez em quando, olhando a bela baía carioca, cenas externas aos porões do cais 22, e por aí vai. Foi adicionado mais um elemento, próprio do cinema: um acerto de contas com o passado. Dois personagens que não existem na peça surgem no roteiro cinematográfico e ajudam a conduzir a trama num embrião de thriller. O próprio Daniel Filho interpreta o elemento-chave deste acerto de contas, um médico sem nome que resistiu ao governo de Vargas.
Nos papéis principais estão Dan Stulbach, na pele do imigrante polonês, e Tony Ramos, como Segismundo. Aliás, os realizadores não tiveram pudor em manter elementos bem sucedidos no teatro. Stulbach já vivera o personagem nos palcos, ao lado de Jairo Mattos. E tanto Tony Ramos quanto Stulbach estão so-ber-bos em seus papéis, num duelo de interpretação, que arranca risos nervosos, lágrimas furtivas e uma ânsia pelo desfecho daquele tormento criado entre eles. O público precisa perceber que estamos diante de um momento histórico da interpretação no cinema nacional, e isso não é exagero. Muito ainda vai se falar do duelo entre Ramos e Stulbach, como o encontro de dois atores de gerações diferentes mas que não encenam, mas contracenam, o que não é fácil quando se trata de cinema, uma arte tão cheia de cortes de câmera para enquadramento e de interrupções do fluxo interpretativo dos atores.
Por fim, a música adequada de Egberto Gismonti e uma belíssima homenagem dos realizadores aos refugiados da Segunda Guerra que chegaram ao Brasil e contribuíram para a nossa cultura e desenvolvimento… Por falar em homenagem, Bosco Brasil mantém a trama de seu texto original que resulta numa extraordinária homenagem e reconhecimento ao teatro, para além de sua utilidade num mundo repleto de desgraças… “Tempos de Paz” não nasce como um clássico do cinema nacional. Não parece ter essa pretensão. É uma realização singela, bem acabada, digna e honesta. Mas por isso tudo uma importantíssima obra para a cinematografia de qualquer país.
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3 clipes que não me saem da memória
22 08 2009Não é melancolia, não. Mas é que existem coisas que a gente não esquece nunca. Ainda bem…
Tempo perdido
Angra dos Reis
Há tempos
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a diferença que um mês faz no futebol
19 08 2009Há exatamente um mês – no dia 19 de julho -, eu choramingava neste blog sobre a campanha pífia do São Paulo nas diversas competições. Eu dizia: a coisa tá feia pelos lados do Morumbi, e me fazia passar por um momento PVC, destilando estatísticas que mostravam que nos últimos 15 jogos, o Tricolor acumulara 7 derrotas, 5 empates e apenas 3 vitórias.
Um mês depois, a coisa mudou, é verdade. Vamos aos números:
- 19 de julho: ganhou do Santos em casa.
- 22 de julho: empatou com o Internacional no Beira-Rio
- 26 de julho: venceu o Barueri lá.
- 30 de julho: ganhou do Grêmio por 2 a 1 no Morumbi.
- 2 de agosto: fez 1 a 0 no Vitória no Barradão.
- 5 de agosto: 3 a 1 no Botafogo em casa.
- 9 de agosto: repetiu a dose no mesmo palco contra o Goiás.
- 16 de agosto: foi à Ilha do Retiro e venceu o Sport por 2 a 1.
Resumo da ópera: 8 jogos, 7 vitórias e um empate. Tem mais a ver com o meu time. Ainda mais que hoje, enfrenta o Fluminense no Morumbi, com o retorno de Rogério Ceni (857 partidas pelo clube). Ceni de volta à cena. A conferir…
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um domingo com radiohead
16 08 2009Porque é domingo e porque a preguiça tenta me tirar da frente do trabalho…
Porque é domingo e porque Radiohead é genial e depressivo, mas lírico e único…
Por isso, me lembro de dois clipes:
Paranoid Android
No surprises
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um sábado com laurin hill
15 08 2009Existem dias em que a gente acorda com uma canção martelando a cabeça. Neste sábado, foi Laurin Hill quem soprou-me essa “I find it hard to say”. É uma performance memorável…
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como é que se diz “adeus”?
13 08 2009Sim, de uma forma ou de outra, este é um post de despedida…
Ontem, foi minha última noite de aulas na Univali, instituição onde leciono há dez anos. Não foi uma daquelas aulas especiais que você prepara há muito tempo, nem uma prova inesquecível. Foi uma noite comum. Atendi alunos, tirei dúvidas, conversamos sobre projetos de final de curso, sobre pesquisas a serem realizadas, temas para reportagens, enfim, foi uma noite comum. Como se nada estivesse para acontecer.
Na verdade, nada estava mesmo. Apenas para mim, afinal sou eu quem estou me despedindo.
A noite voou, falei com muita gente, e voltei para casa com um sentimento de que algo não havia se fechado. Pelo menos inconscientemente, eu esperava um fechamento nas aulas de minha parte, uma despedida formal, nem sei mais. Mas hoje cedo, tudo me pareceu tão perfeito e bem amarrado! Ter a última noite como uma noite qualquer é ter a clareza de que a vida continua, de que as coisas mais importantes estão nos detalhes de todos os dias, em toda hora, e que não se pode perder a chance de aproveitar tudo isso. Ter a última noite sem uma despedida formal é muito melhor, pois me permite fazer de visitas extemporâneas, acontecimentos corriqueiros e informais.
Mas por que tantas sentimentalidades neste post?
Ora, completei dez anos de Univali no começo deste mês. Dei aulas para mais de mil alunos neste tempo todo. Lecionei em onze disciplinas diferentes. Orientei quarenta alunos na graduação e pós-graduação. Trabalhei muito neste tempo todo, muito mesmo. Enfim, aprendi e vivi demais nesses anos todos. Foi aqui que aprendi a ser o que sou no mundo da pesquisa, do ensino, na esfera da academia. Tive aulas com alunos, com funcionários, com colegas professores, que puderam me ensinar as coisas do Jornalismo, as coisas da vida, a matéria dos sonhos, os conteúdos secretos dos seres humanos… Aprendi e cresci! E sou muito grato por tudo isso. Dez anos são uma vida, e não se joga tudo isso assim pela janela…
Mas não há tristeza, mas satisfação. Não há dor, mas desapego. Não há incômodo, mas o sentimento-sem-preço de missão completa, de ciclo concluído.
Gosto das metáforas que fazem da vida uma jornada. Isso nos faz ver que a viagem interessa muito mais do que os destinos. Levando isso em consideração, me vejo dentro de um trem em movimento. Estou deixando um vagão para ingressar em outro, mas a direção é a mesma, a composição está ali. Diferente de outras despedidas, esta não é como uma morte. Não, é uma continuidade. Sigo para um outro vagão da longa composição, mas me alegra ver que o vagão que estou deixando continua forte, em movimento, no mesmo sentido. Não há porque dizer “adeus”. Digo então: “boa viagem para todos nós!”
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dia dos pais: crônica 10
9 08 2009Giant steps (01/07/2005)
Moro a vinte passos do mar, condição que gera uma certa inveja de uns amigos meus. Tenho um filho lindo, saudável, esperto e feliz, o que também é motivo de inveja. O meu filho tem um ano, e ensaia os primeiros passos. Sozinho, digo. E isso não sei se causa inveja, já que significa algum desapego. Calma, eu explico.
Nas manhãs em que o sol invade a sala de casa (e elas são muitas), eu e meu filho deixamos o sofá e sentamos num quiosque bem em frente à praia. Quando há vento, também há surfistas. Não que a minha praia seja um pico excelente, mas quando o vento entra bem, traz algumas ondas, coisa de metrinho no jargão surfístico. Pois é, eu e o filhote ficamos de camarote assistindo as performances dos mais corajosos. A gente chega a ver bons momentos, é verdade, mas o que mais nos diverte são os tombaços que eles levam. Em terra firme e com preguiça de sobra, nós chegamos a torcer para que a onda seja bem traiçoeira e que passe uma boa rasteira no magrelinho que insiste em se manter em pé naquele pedaço estreito de fibra e parafina. Quando ele cai, a gente se olha e sorri.
Costumo sorri também quando meu filho se precipita no chão por algum motivo e me olha com aqueles olhinhos de porque. Na verdade, são olhos bem grandes e a pergunta que ele me atira na cara é: Como é que eu fui parar aqui? Você não viu não? Quem me derrubou? Pois, eu sorrio para dar confiança. Para mostrar que não foi nada. Como quem diz: Levanta daí, você mais tombos pra cair. E assim, quando ele me olha e encontra o sorriso, repete o gesto, me estica os bracinhos e eu o resgato do chão.
É muito provável que um dia meu filho venha a ser surfista. Adora o mar. Fica vidrado com o vai e vem da água e tem um grande senso de equilíbrio.
Já com onze meses, meu filhote jogava as pernas para frente, de forma coordenada, como se soubesse exatamente o que é andar. Observador que é, ele viu que andar é fácil. Ou pelo menos parece. Aí, esticou os bracinhos na direção dos pólos Norte e Sul e se lançou adiante, equilibrando-se na medida em que se apoiava no que via. Muitas vezes, julgou mal os objetos e se apoiou no que não era firme. Tombo! Outras tantas, calculou mal as distâncias e – no meio do caminho – suas perninhas não agüentaram o próprio peso e ele desabou no chão, exausto. Andar é aprender, ele percebeu. E mais: me ensinou isso.
Não chega a ser nenhuma maldade nossa torcer para a onda derrubar o surfista. Afinal, se ele realmente cair, vai se estatelar num meio flexível, receptivo. Tudo bem, tem a força d’água, o chacoalhar, o caldo e, talvez, a prancha sendo arremessada na cabeça. Claro, isso pode acontecer. Mas a gente não torce por isso não.
Meu filho, agora, ensaia os primeiros passos, sozinho. Não mais se apóia tanto nas coisas e em mim. Na verdade, quando estendo a mão para ele para que caminhemos juntos, ele se esquiva. Quer ir sozinho. É natural. Está conhecendo o mundo, e percebe que não precisa de mim para isso. Andar é aprender, ele me ensina isso. Todos os dias. Quando perde o equilíbrio, projeta-se para frente e para trás, buscando seu centro de gravidade. Às vezes, isso não basta, e ele dá uns passinhos pros lados, corrigindo a postura. Já sabe que é assim, que é preciso ter jogo de cintura, senso de equilíbrio. É assim quando a gente anda. É assim na vida.
Ensinar os filhos a andar é se desapegar. É compreender que eles andarão por si mesmos, que tomarão suas decisões e que despencarão muitas vezes. Dói na gente. Quando eles caem e quando a gente vê que eles já fazem os seus caminhos sozinhos…
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dia dos pais: crônica 9
9 08 2009Na prática, a teoria é outra (24/05/2005)
Esses dias, recebi um email muito útil, de verdadeira prestação de serviços. O assunto já dizia a que vinha: Treinamento para ter filhos. E numa linguagem clara e com evidente intenção pedagógica, trazia quatro exercícios práticos para aqueles que planejam ter bebês em breve. Vou reproduzir alguns trechos, adicionando detalhes que aumentam o grau de dificuldade das tarefas.
Exercício 1. “Vestindo a roupinha: Compre um polvo vivo de bom tamanho e vá colocando, sem machucar a criatura, nesta ordem: fraldas, macaquinho, blusinha, calça, sapatinhos, casaquinho e touquinha. Não é permitido amarrar nenhum dos membros. Tempo de execução da tarefa: uma manhã inteira”.
Nesta primeira prova, tenha muito claro que o seu bebê é mais ágil, mais forte e mais insistente que o polvo do exercício. Tudo bem que o polvo é mais escorregadio e tem ventosas nos tentáculos. Entretanto, seu bebê pode também se tornar escorregadio se estiver na hora da troca de fraldas; seu bebê gira em torno do próprio eixo, podendo ocasionar quedas do trocador, da cama ou de qualquer móvel resistente que você o apóie. (O “resistente” da frase anterior é condição sine qua non para a troca. Se puder fixar algemas no trocador, ajuda). Seu bebê não tem ventosas, mas tem unhas que crescem rápido; seu bebê não tem oito tentáculos, mas na hora isso não faz diferença. E o pior: seu bebê sobrevive fora d’água. Diferente do polvo.
Exercício 2. “Comendo sopinha: Faça um buraquinho num melão, pendure o melão no teto com um barbante comprido e balance-o vigorosamente. Agora tente enfiar a colherinha com a sopa no buraquinho. Continue até ter enfiado pelo menos metade da sopa pelo buraquinho. Despeje a outra metade no seu colo. Não é permitido gritar. Limpe o melão, limpe o chão, limpe as paredes, limpe o teto, limpe os móveis a volta. Vá tomar um banho. Tempo para execução da tarefa: uma tarde inteira”.
O melão sugerido ajuda a treinar. Mas assim que executar a tarefa uma vez, volte a executá-la outras tantas. Afinal, seu bebê tem pelo menos três refeições diárias. E geralmente, assim que você termina de limpar tudo, está na hora da próxima papinha. E melões são mais pacientes.
Exercício 3. “Passeando com a criança: Vá para a pracinha mais próxima. Agache-se e pegue uma bituca de cigarro. Atire fora a bituca, dizendo com firmeza: Não. Agache-se e pegue um palito de picolé sujo. Atire fora o palito, dizendo com firmeza: Não. Agache-se e pegue um papel de bala. Atire fora o papel de bala, dizendo com firmeza: Não. Agache-se e pegue uma barata morta. Atire fora a barata morta, dizendo com firmeza: Não. Faça isso com todas as porcarias que encontrar no chão da pracinha. Tempo para execução: o dia inteiro”.
O exercício proposto ajuda a desenvolver a paciência, mas você deve lembrar o seguinte: seu bebê se move com mais rapidez que o papel de bala, é mais insistente que a bituca, mais resistente que o palito de picolé e mais nojentinho que a barata. Em condições normais de temperatura e pressão e fora do laboratório, você não vai se limitar em dizer “Não!” centenas de vezes. Na pracinha, você terá que impedir que seu bebê enforque uma inofensiva pombinha; terá que resgatá-lo da lata de lixo que ele decide conhecer por dentro; terá que desobstruir a garganta dele, lotada de pedrinhas, tampinhas de garrafa, bitucas de cigarro, papel de bala e outras coisas que ele encontrou no chão, porque alguém atirou longe…
Exercício 4. “Passando à noite com o bebê: Pegue um saco grande de arroz e passeie pela casa com ele no colo das 20 às 21 horas. Deite o saco de arroz. Às 22:00 pegue novamente o saco e passeie com ele até as 23:00. Deite o saco e vá se deitar. Levante às 1:30 e passeie com o saco até 2:00. Deite o saco e você. Levante às 2:15 e vá ver a sessão Corujão porque não consegue mais pegar no sono. Deite às 3:00. Levante às 3:30, pegue o saco de arroz e passeie com ele até as 4:15. Deitem-se os dois (cuidado para não usar o saco de travesseiro). Levante às 6:00 e pratique o exercício de alimentar o melão. Não é permitido chorar”.
Considere que, fora de simulações, o seu saco de arroz se movimenta sem parar, grita e chora sem parar também. Considere que o seu saco de arroz começa a noite pesando cinco quilos e terminará o seu expediente pesando cinqüenta. Eu disse seu expediente, pois você precisará ser rendido por alguém no meio do turno. Você terá que chamar reforços. Como eu disse, seu bebê não pára quieto: move as perninhas e os bracinhos, golpeando seu rosto, puxando seus cabelos, enfiando os dedinhos no seu nariz, boca e olhos. As perninhas atingem repetidas vezes o seu estômago e o baixo ventre. Alerta vermelho para os papais: se quiserem que o seu bebê tenha irmãozinhos, mantenha-os a uma altura segura para ambos (ele e você). E como eu disse também, seu saco de arroz grita e chora sem parar. Nos primeiros dias, os vizinhos sorrirão amarelos e mentirão, dizendo que nem ouviram o escarcéu da madrugada. Vão até tentar afagos no saco de arroz. Nas semanas seguintes, eles já comentarão nos corredores a gritaria da noite anterior. (É fácil perceber este estágio: quando você chega no prédio e os pega conversando baixo, eles logo sorriem amarelos de novo e interrompem o assunto bruscamente). No mês seguinte, as queixas chegam ao síndico. E no outro, você recebe uma advertência do condomínio com cópia do abaixo-assinado que fizeram, tentando te expulsar dali…
Se isso já aconteceu comigo? Os dois primeiros estágios, sim. Mas meus vizinhos não se deram ao trabalho de fazer o tal abaixo-assinado. Agi antes: vedei a boca do meu saco de arroz com uma silver tape!
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dia dos pais: crônica 8
9 08 2009Ladrões de tempo (01/05/2005)
Como é que Shakespeare conseguiu construir sua obra mesmo tendo filhos? Como Marx fez o que fez, apesar das boquinhas miúdas que o perseguiam clamando por comida e atenção? E Einstein, como chegou aonde queria? Como driblaram suas crias e dedicaram-se tão intensamente às suas obras, obtendo tanto êxito?
Vejam: não me refiro a talento, mas a coisas mais prosaicas, como o tempo. Insisto: como é que esses caras conseguiram produzir mesmo tendo nas barras de suas calças aquelas criaturinhas fofinhas, graciosas, barulhentas e de energia inesgotável?
Eu respondo. Eles não tinham aquelas criaturinhas nas barras de suas calças. E assim puderam mergulhar no trabalho, oferecendo à humanidade contribuições de inegável importância.
Embora tivesse filhos pequenos, Shakespeare não hesitou em deixar a família na sua cidade natal para trabalhar com teatro em Londres. Longe de casa, viajava, escrevia, dirigia montagens. E pelo menos uma vez por ano (uau!) voltava a Stratford von Avon para rever os pimpolhos. Nessa distância, escreveu dezenas de poemas (ma-ra-vi-lho-sos!) e 34 peças que mudariam a história da literatura universal e o converteriam na segunda pessoa mais comentada em livros do planeta. (Só perdendo para Jesus Cristo, que, inclusive, nem filhos teve. Pelo menos é o que contam os biógrafos bíblicos).
Karl Marx também não parava em casa. A penca de filhos chorava e a mente do homem fervilhava de idéias, de palavras de força. Eram tempos difíceis e o ainda jovem Marx vendia o almoço para comprar a janta. Com a prole agarrada às suas extremidades, Marx construiu uma filosofia, um modo de compreender o homem no seu tempo. É verdade que os filhos vinham em segundo lugar (as idéias primeiro), mas a humanidade se beneficiou muito com esse pai desnaturado.
Einstein não era muito diferente. Tanto é que nunca chegou a conhecer a primeira filha, Lieserl. A noiva teve a criança na Hungria, enquanto Albert (com apenas 22 aninhos) trabalhava na Suíça. Dizem as más línguas que a menina teria sido criada por outra família, já que o funcionário do escritório de patentes de Berna não tinha onde cair morto.
***
Pois é. Filhos tomam o nosso tempo. Seres adoráveis, são meigos, alegres e fofinhos. Coiotes em pelegos. Sanguessugas disfarçadas em bonecos gordinhos; parasitinhas cruéis que roubam a nossa energia, o pouco tempo que temos e toda a intimidade que mantínhamos com a esposa.
O segredo de Marx, Shakespeare e Einsten está aí. Não só no talento, mas no quanto puderam se dedicar às suas idéias, livres de bebês, fedelhos e adolescentes. Kafka e Nietzsche sequer tiveram filhos. Sartre tampouco. Bob Marley e Pelé, pelo contrário, fizeram muitos, mas tiveram o cuidado de espalhá-los por aí. Com isso, puderam provocar pequenas (e indeléveis) revoluções na música e no futebol.
***
Conhecido meu me escreve com visível desespero. “Sou um desmazelado. Perdi o que me mandou. Minha filha me consome”. Escritor, intelectual e artista, ele não consegue mais trabalhar como antes. Todo o tempo que tinha foi sugado por aquele pacotinho de gente que todos insistem classificar de “gracinha”.
Respondo solidário ao conhecido. Afinal, tenho um bebê de dez meses. E como o meu amigo, também venho sentindo as imensas dificuldades para tomar as rédeas da própria vida. Já não leio o que quero, já não consigo um minuto de paz, de solidão. Escrever, então… vixi! Este texto já deveria ter sido mandado há pelo menos dois meses. Já o escrevi mentalmente há um tempão, mas e a chance de sentar e martelá-lo no teclado? Não tinha jeito…
Meu colega retornou momentaneamente aliviado. Não, aliviado não. Conformado… resignado seria a palavra mais acertada. Me chamou inclusive de “meu irmão na paternidade”. Pois é, o cara – que nem me conhece direito – me chamou de mano. Fiquei feliz, lisonjeado, até porque admiro o trabalho dele. Mas dois minutos depois, percebi que era uma ilusão: ele havia me relevado que fazemos parte de uma mesma fraternidade, uma irmandade macabra: a dos pais recentes. E pior: a dos pais que se preocupam com seus filhos e viram reféns dos pequenos tiranos…
***
No final de março, comprei um livro sobre a ditadura militar e os seus efeitos sobre os jornalistas. Livro delicioso, feito com critério e com uma pesquisa muito rigorosa. Sabe quantas páginas pude ler até agora? 39. É. Justo eu que comia livros, consumia sem pudor, atropelando tudo… Não tem dado… fazer o quê? Para tentar continuar a leitura, venho carregando o grosso volume em minha valise para todo lugar que eu vá. A esperança é contar com uma fila de banco, com o trânsito engarrafado, com qualquer oportunidade que me obrigue a ficar longe do meu pequeno capataz e assim possa me deliciar com algumas páginas…
Outro dia me peguei como um marginal. Fi-lo dormir e, na ponta dos pés, coloquei a criaturinha em sua jaula, quer dizer, bercinho. Acompanhei seu sono por alguns segundos, certificando-me de que ele estava apagado mesmo, fora de combate. Ótimo, sorri. Dei três passos em ré, sentei-me numa cadeira de praia e apanhei o livro. Abri na página e mergulhei entre duas frases. Dei uma, duas, três braçadas vigorosas e alcancei um novo parágrafo. Fui adiante, mas – de repente – ouvi algo estranho, um suspiro, um resmungo, sei lá. Voei como um raio para fora do livro e olhei o bercinho: meu senhor estava em pé, sustentando-se nas grades e me lançando um olhar reprovador. Numa fração de segundos, não tive dúvidas. Fechei o livro e o escondi atrás de mim. Me senti um criminoso…
***
Mas não é só isso. Descobri outros sintomas que vejo hoje como graves. Venho comendo em pé. Acordo à noite com qualquer barulhinho e saio às cegas pelo corredor em busca de um resmungo ou princípio de choro. Quando em pé, parado e sem nada nos braços, ainda oscilo de um lado a outro feito um pêndulo. Baixei naturalmente o volume da minha voz. Nunca grito. E o pior, o mais grave: tenho feito a barba duas vezes por semana…
A situação não é fácil, mas meus amigos (?) que já têm filhos tentam me acalmar, dizendo que é irreversível.
Sem tempo pra nada; com as idéias e os projetos escorrendo pela cabeça sem as suas devidas realizações; eu continuo levando a vida. A dele e a minha. As queixas são verdadeiras, mas elas mais confundem o meu juízo do que servem de válvula de escape. Se reclamo, ao mesmo tempo me penitencio por isso. Afinal, aquela criança é a melhor coisa que já fiz; o projeto mais acertado de que participei; a coisa mais preciosa que tenho ao meu redor.
O problema não é o tempo, nem a tirania daquele déspota mirim. O problema não está em mim ou no meu egoísmo inalienável. O problema é que os pais de hoje são diferentes dos de antigamente. Nos tempos de Marx, de Shakespeare e de Einstein, era possível deixar as crianças com as mães, sem qualquer remorso ou cobrança emocional. Hoje, um novo lugar foi desenhado para o pai. Uma nova fronteira que nos coloca uma série adicional de compromissos, de contrapartidas familiares, de posicionamentos diante da criação e da educação desses filhotes.
Descobri, então, que a proteção que eu teria que dar ao meu filho não era a mesma que o avô dele imaginou para mim. E que se os pais hoje tivessem seios, guardariam seus filhos bem próximo ao peito. Se fosse assim, essas criaturinhas cândidas não seriam apenas ladrões de tempo: nos tomariam o leite também.
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dia dos pais: crônica 7
8 08 2009Vai saber o que ele quis dizer (05/03/2005)
Tem coisa mais patética que o auto-engano? Pois é, pior não é se iludir, mas perceber que você mesmo trabalhou para ocultar aquilo de si. E quando a gente vê isso, dá uma raiva, misturada com arrependimento e a sensação: Putz! Como fui trouxa!
Bem, tudo isso pra dizer que passei por essa situação agora há pouco. Há algumas semanas, o sabidão aqui chegou ao trabalho todo feliz, quase saltitante. Meu filhote de oito meses já fala, já balbucia alguns verbetes. Não os mais complexos, é verdade, mas os mais necessários: Mã-mã e Bã-bá. É claro que até as frestas das paredes souberam da novidade por lá. Orgulhoso, fagueiro, eu desfilava pelos corredores acenando majestático a todos. Até mesmo aos desconhecidos, que se entreolhavam, perguntando: Quem é esse cara?
Um ou outro colega sacana me dizia: Mas você tem certeza que seu garoto está falando essas coisas? Na altura de meus oito meses de experiência, eu fulminava meu interlocutor com um olhar de desprezo, respirava dois segundos (coitado!), e tascava: Mas é claro! Eu conheço o meu filho! Você precisa ver!
Outro dia, quando me deixava inundar por um mar de baba de meu filho, passei a observar os seus hábitos. Eu o levantava para o alto em movimentos rápidos, coisa que – pelo jeito – ele adorou. Eu erguia os braços (ele junto) e baixava. O moleque se matava de rir: não sei se é um sádico ou masoquista. Meus braços quase despregando do corpo de cansaço e ele rindo. Ele quase se estatelando no chão da sala, e ainda rindo. E claro: vocalizava a todo o momento, entre uma risada e outra, um “Bã-bá”. Eu sorria, orgulhoso. Afinal, o cara – com aquele pedacinho de vida que tinha – já me reconhecia, me chamava de pai em seu dialeto particular.
De repente, sua mãe chega, e ele escancara novo sorriso, estende os braços em sua direção: Mã-mã! Evidentemente, solicitava seu afeto e colo. Passei a olhá-los de longe, sem ser visto. A TV ligada e eles conversando, digamos. O molequinho balbuciando coisinhas e a mãe, sorrindo e respondendo palavras que, essas, eu entendia. De repente, aparece na TV o Ratinho, e o garoto vira seu rosto para o apresentador, arregala os olhos e diz: Bã-bá! Me indigno. Em segundos, a imagem é substituída por outra: um pássaro pousa num galho de árvore, e meu filho: Bã-bá! Me confundo. Dois minutos depois, a mãe oferece uma banana ao pequenino, e ele, Bã-bá! Já não entendo mais nada. Disposto a tirar isso a limpo, sigo – passos firmes – até eles e me coloco à frente daqueles olhinhos faiscantes. Ele me vê, sorri no canto da boca, e diz: uama-mame-babobo, seguido de mmmmiammumu. Já sem poder me conter, explodo: Quer dizer que eu não sou mais o Bã-bá? Ele franze o cenho, passa a mão sobre o meu braço e explica: ê-amu-ma-ma-ba.
Daquele dia em diante, eu presto atenção no que ele diz, mas ele não diz nada com nada. “Bã-bá” pode ser um monte de coisas, inclusive eu. “Bã-bá” é vocalizado de forma prazerosa. Eu vejo isso, porque vem acompanhado de sorrisos e risinhos baixos. Mas “Bã-bá” não é apenas uma maneira de se referir a mim. E justo eu que convenci meio mundo disso…
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dia dos pais: crônica 6
8 08 2009Você sabe quando… (30/01/2005)
Há coisas que a gente pega no ar. Não precisa dizer muito. É uma expressão no rosto, uma sombra de atitude, meia palavra… e pronto! A gente saca, e aí não dá para disfarçar, desmentir, falsear. Nessas ocasiões – e elas não são poucas -, o ser humano é previsível, transparente. E mesmo aqueles que se acham acima do bem e do mal, acabam repetindo o comportamento padrão.
Por exemplo: a gente sabe quando o cara é um “pai fresco”…
… quando ele chega no trabalho com a parte do ombro da camisa encharcada da babá do bebê;
… quando carrega na agenda umas 600 fotos da sua cria e insiste em te mostrar todas elas, comentando em detalhes (agora, a baba que escorre é a dele…);
… quando, mesmo sem nada nos braços, ele fica em pé oscilando de um lado para o outro, como um imenso pêndulo. Suave, pra lá e pra cá;
… quando ele só tem um assunto: a diarréia do filho ou o balbucio incompreensível que ele traduz como palavra;
… quando estoura o cartão de crédito para montar o enxoval e o quartinho do bebê.
Mais adiante, a gente sabe logo de cara quando o sujeito tem filhos pequenos. A gente percebe…
… quando o cidadão carrega aqueles desenhos dos filhos na mesma valise com os contratos e os documentos da firma;
… quando ele chega atrasado a uma importante reunião com a desculpa de que levou o garoto na escola;
… quando o cara falta ao serviço para ir à reunião de pais e mestres. E pior: interrompe a discussão para mostrar o boletim colorido do filhote;
… quando ele entra no cheque especial para comprar toda a lista de material escolar da pestinha.
Tem mais. A gente também saca quando o cara é pai de adolescente. É…
… quando corta o cabelo de forma engraçada, ignorando a própria idade e se achando garotão. Isso quando não põe piercing e faz tatuagem;
… quando o som de seu carro só tem CD estranho. Seja as bandas malucas da filha ou mesmo as que ele cultuava quando era jovem, e resolveu ouvir de novo;
… quando hipoteca a casa e vende o carro para mandar os jovenzinhos para estudar inglês nos Estados Unidos ou na Austrália, destino da moda.
Ainda não acabou. A gente vê de longe quando o cara tem filho estudando na universidade, em outra cidade, e dependendo de mesada. É um tempo em que…
… a conta do telefone alcança um quilômetro de extensão;
… e o indivíduo vende as jóias de estimação da família e apressa o advogado no inventário de bens da família.
Alguns anos depois, quando os filhos se formam – sem cartão e cheque, pagando aluguel e a pé -, a gente vê o que sobrou do cara…
… dobrou as horas extras na firma para pagar as dívidas;
… quer matar o advogado que ainda o enrola;
… continua trocando os nomes dos filhos mais velhos pelos mais novos;
… e morre de saudades deles, que nunca telefonam.
(Quando eles ligam pra pedir uma grana emprestada, ligam a cobrar)
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dia dos pais: crônica 5
8 08 2009Das fragilidades (05/10/2004)
No começo de tudo, ele não era nada. Ou quase nada. Um pontinho preto num mar de sei lá o quê. Era frágil, sem forma, sem nada definido. Não era sequer um acidente ou uma imprudência nossa. Mas já fazia diferença. Depois de algum tempo, voltas no relógio, ela passou a ser um amontoado de células loucas por mitoses e meioses, um corpo empelotado, amorfo, disforme. Era frágil, não por ser quebradiço, mas por ser delicadamente pequeno: leve a ponto de flutuar no útero, ínfimo a ponto de perdermos sua nitidez na tela do ultra-som.
Hélices do tempo, os ponteiros do relógio giraram fazendo aquela coisinha crescer, tomar forma. De ser empelotado passou a girino. De girino tornou-se um sapinho não-verde. O batráquio deu lugar a um lêmure sem pelos, com olhos nos cantos da cabeça. Bicho estranho, mas fascinante, curioso. Feio, é preciso dizer, sem meias-palavras. Mas que arrancava sorrisos toda vez que se avistava naquele país imaginário que é um útero fértil.
Volto a dizer. Se o tirássemos naquele segundo, não duraria mais nenhum segundo. Frágil demais, dependente total de líquidos protéicos, de calor, de sangue e proteção. Tal como hoje, passados alguns meses – as hélices não param nunca? -, em que continua fraquinho, inofensivo, diminuto.
Afinal, ele não é nada: tem um nome que escolheram para ele, não se alimenta sozinho, nem se limpa com as próprias mãos. Não duraria nesta selva de pedra aí fora. Ele nem pesa mais que um saco de arroz, não fica totalmente em pé, nem articula “obrigado” e “até logo”. Não se penteia porque o cabelo é ralo demais. Não amarra os sapatos, pois a articulação das mãos ainda não lhe permite. Mas sapatos para que, se ele nem caminha por aí?
É frágil, inofensivo, incapaz, delicado. Com um sorriso, me derrete. Com um olhar maroto, me faz encolher os ombros e estremecer. Com a pressão daqueles dedinhos gordinhos, esmaga a ponta do mau humor que trago comigo e dilui o meu veneno. Com um balbuciar de palavras em línguas incompreensíveis, ele me mostra as verdades e as essências do que é viver. Mas ele é pequeno, fraquinho, mole demais. Eu, não. Sou rijo, enfrento problemas, sou auto-suficiente. Dirijo situações, influencio pessoas, aconselho amigos. Conduzo, batalho, venço. Quando ele ameaça chorar, entorta minhas sobrancelhas para cima, destrava meu queixo que cai. Aí, dobro os joelhos. Olho em minha volta e vejo: sou pequeno, tão pequeno que caibo num cantinho do seu coração. Aquela ameixinha que pulsa leve, frágil.
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dia dos pais: crônica 4
8 08 2009Os botões dos bebês (01/09/2004)
Eu acho que bebês deveriam vir ao mundo com alguns opcionais. É, como esses modelos de carro que a gente vê por aí: ar condicionado, vidros elétricos, teto solar, airbag para o carona… Pois, para mim, os bebês poderiam vir equipados com três botões: um que ligasse e desligasse, outro com função Mudo e um terceiro que acionasse o mecanismo autolimpante.
Garanto que se eles viessem com esses opcionais de fábrica, muita gente iria se entusiasmar e produzir mais e mais bebês. Claro que isso acarreta num problema de superpopulação, mas não quero entrar em questões ambientais tão profundas… Na verdade, como qualquer cidadão na média, fico pensando nas facilidades que esses novos bebês trariam à rotina doméstica. Já pensou como seria? Então, imagine: você chega em casa exausto do trabalho, mas louco de saudade de seu filhote. Você beija a esposa, burocraticamente conta como foi o seu dia, assiste o telejornal, dribla a novela e vai brincar com o bebezinho. Brinca, brinca, brinca e cai morto de cansaço. Ele, não. Agora, está mais aceso do que nunca. Quer atenção, quer carinho, quer que você continue com os movimentos ritmados e frenéticos que você mesmo inventou. Seus músculos não suportam mais, mas o bebê quer, faz beicinho, treme o queixo, agita os bracinhos, pende a cabeça. E chora, berrando a plenos pulmões, abalando as estruturas do edifício onde você mora. Se o seu bebê for equipamento com a tecla LIGA, basta que você aperte a bendita e o pequeno tirano se desligará em meio segundo, dobrando-se sobre si mesmo como um boneco. Aí, é só guardar no berço e religar na manhã seguinte.
Mas vamos adiante nesse exercício de imaginação… Você acalentou seu rebento por horas e ele agora dorme um soninho tranqüilo. Você o deposita com o maior dos cuidados no berço, para que ele durma mais confortável e para que você possa assistir à final do campeonato sem estresse. Você o coloca como se fosse uma pluma, vai nas pontas dos pés até a sala e liga a tv com o volume no primeiro tracinho. Meio segundo depois, ele acorda aos berros, chorando a plenos pulmões, desestabilizando qualquer monge budista e aniquilando qualquer pretensão de ver pelo menos o segundo tempo da partida. Se você for um cara sortudo, e seu bebê tiver uma tecla MUDO, basta acioná-la. Para desencargos de consciência, você até pode trazê-lo para a sala e sentá-lo ao seu lado no sofá, diante das cervejas e da telinha. Ele se esgoelará, mas tudo em silêncio. Mexerá os bracinhos, puxará os próprios cabelinhos, ficará roxo, mas tudo no mais perfeito mutismo.
Terceira situação hipotética: você já acordou mais cedo, tomou seu banho, colocou a melhor roupa, já que é dia de reunião. Preparou o café para a patroa, está feliz. Só falta mesmo trocar o bebê, que está um pouco agitadinho e parece estar recheado com algo. Você conversa com a criança, mas ela não te dá ouvidos e solta um jato quente, amarelo e que mancha na sua camisa. Você pensa em soltar um palavrão, mas não é o momento de introduzir seu bebê no reino da má-educação. Você se contente com um gemido, um muxoxo apenas. Bem, você terá que se trocar novamente, irá se atrasar e seu humor já não é mais o mesmo. Tudo poderia ser evitado se o seu bebê fosse equipado com um botão autolimpante. Isso jamais estragaria uma manhã sua ou do alegre casal que há pouco ganhou um bebezinho…
Mas, convenhamos, a realidade é outra e os bebês não vêm com botões. Seria divertido se isso acontecesse, mas os modelos chegam às maternidades na modalidade básica, sem acessórios. Eu até convivo muito bem sem essa parafernália toda. Mas bem que trocaria os três botões por uma única tecla: a SAP. Com ela, eu não precisaria das demais. Afinal, meu filho balbuciaria que está com fome, que precisa ser trocado, que está com dorzinha de barriga ou mesmo que quer mais atenção. Com a tecla SAP, ele olharia para mim e, entre os esgarçar de um sorriso e outro, deixaria escapar qualquer eu-te-amo-papai…
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dia dos pais: crônica 3
8 08 2009O olhar, o braço e as mãos do pai (23/03/2004)
Faz tempo, mas eu me lembro da sensação. Duas mãos silenciosas, enormes e fortes, me seguravam. Tinham o apoio dos braços, e os passos eram bem cuidadosos, quase flutuantes. Quem me levava quase nem respirava para que eu não acordasse. Muito devagar, me colocavam na cama. Eu deixava meu corpinho serenar, despejando-me no colchão. Mas sentia que alguém me observava por um segundo ou mais: era meu pai. Que desmanchava o sorriso de satisfação assim que percebia que eu acordara. Mas eu, de novo, fechava os olhinhos, e ouvia um suspiro de alívio dele.
Como eu disse, isso aconteceu há muito tempo, quando eu ainda era pequenino e dormia na sala, tendo que ser transportado para a cama. É curioso como a memória da gente funciona. Isso estava guardado lá nos cafundós das minhas lembranças, soterrado abaixo de muita tranqueira e de alguns outros sentimentos.
***
Já tentou cortar um bife com uma mão só? E desrosquear a tampinha do refrigerante só podendo contar com cinco dedos? Não é fácil, mas é possível. Aprendi e executei essas proezas dia desses quando estava com meu filho recém-nascido nos braços. Na verdade, Vinicius estava depositado sobre o braço esquerdo e eu estava com uma sede africana. Caminhei lento e calmo até a cozinha e abri a geladeira. De costas. Não ia expor o filhote àquele ventinho gelado que escapa da porta entreaberta. Numa manobra rápida, escorreguei o braço pelas prateleiras, tateando grades e tomates e cheguei ao pescoço da garrafa de Coca. Puxei e, com um golpe de bunda, fechei a porta da geladeira. Protegidos de qualquer friagem, andamos até a bancada, onde coloquei a garrafa em pé. Foi aí que me dei conta de como abriria a bendita com apenas uma mão. Vinicius respirava quietinho. Estava no país dos sonhos. Não tinha como rearranjá-lo. Prendi a respiração e desci a palma da mão pela rosca da garrafa: apertei como uma morsa – com dois dedos – a parte inferior e dei um tranquinho no sentido antihorário na parte de cima. Tchiiiiiiiiii! Legal, abri! Mas meio segundo depois, pensei ter sido alto demais. Ele vai acordar com esse barulhão, seu burro! Que nada! Vinicius até levantou meia pálpebra para ver se estava tudo bem comigo. Em seguida, suspirou senhor-de-si e voltou ao sono.
***
Resgatei a sensação do calor e da força das mãos do meu pai lá do fundão da memória. Para mim, eram mãos imensas, colossais, capazes de sustentar o mundo. Quando cresci, vi que o mundo encolhera um pouco. E meu pai deixou de me carregar do sofá para a cama. Bastava chacoalhar que eu despertava, ainda meio zonzo. Eu caminhava trôpego até o quarto, sob o olhar aliviado dele. Perdi meu pai há catorze anos, mas só hoje entendo e repito aquele olhar…
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dia dos pais: crônica 2
8 08 2009Os insones são felizes (12/07/2004)
Faz duas semanas que me tornei pai. Claro, isso não é lá grande novidade já que quase toda a fauna de homens no mundo passa por isso em algum momento da sua vida. Mas é a minha primeira vez, e ainda não percebi a coisa toda… Vasculhando minha agenda essa tarde, em busca de qualquer outra coisa, esbarrei num bilhetinho que escrevi para mim mesmo na capa do caderno. Nem me lembrava mais que havia feito aquilo, mas agora me recordo nitidamente que rascunhei algumas frases no meio da madrugada: minha mulher descansava do parto, o bebê dormia sem culpa nem nada, e eu ainda me refazia de tudo aquilo. É claro que acompanhei a cirurgia, que tirei fotos, que anunciei o nascimento pelo celular, que monitorei cada respiração daquele menino naquela noite. Medo bobo. Medo de pai novo…
No silêncio do quarto, a clínica praticamente vazia, fiquei ali, só assistindo os dois dormirem. Quis gritar, quis dançar, mas me detive: seria ridículo; incompreensível para qualquer enfermeira que ali entrasse de repente. Cocei a mão e apanhei a agenda. Com uma letra miúda, fui deixando escoar uma ou outra palavra, como num conta-gotas. Não que eu pesasse as palavras, mas porque não queria acordá-los. Fui imprensando palavra com palavra, sem pressa, com cuidado na pontuação, fazendo a madrugada só minha.
***
Tornei-me pai há poucas horas e ainda estou tomado por uma imensa sensação de paz. Não chorei no parto; não fiquei nervoso; só fui sorriso. Não esperava reagir assim, mas acho mesmo que já estava esperando tudo isso. Ser pai me preencheu com tanta força, serenidade e delicadeza que quase nem me reconheço.
A força, eu roubo dos dedinhos dele, que apertam minha mão; a serenidade, eu vejo no soninho leve e contagiante dele; a delicadeza mora nos movimentos suaves dos lábios, quando balbucia historinhas incompreensíveis.
Como será daqui pra frente? Como o mundo vai tratar esse novo passageiro da vida? Eu não sei. Também não quero me preocupar agora com isso. Deixa o mundo girar que eu quero mesmo é velar por esse soninho gostoso.
***
Se fosse essa noite, escreveria outra mensagem. Talvez mais serena, mais amena. Já mudei bastante desde aquela madrugada. Não é responsabilidade ou o peso da idade. Não é medo, nem coragem. É uma sensação diferente, que me preenche, que me acalma, que me renova. É uma paz imensa, espalhada, inebriante. Só. Nessas duas semanas, a vida mudou bastante. Comi menos, sorri mais. Dormi menos do que o normal, é bem verdade. Mas não foi apenas para amainar algum chorinho sem-causa. Perdi o sono para sonhar com ele crescido, correndo pela praia, chutando a espuma da onda que lambe a areia. Não perdi o sono. Ganhei sonhando acordado.
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