ciberliga de pesquisadores paladinos

17 11 2009

Ciência não precisa ser chata.
Pesquisa não deve ser uma coisa enfadonha.
Cientistas não são necessariamente aqueles caras que se escondem atrás de óculos de aros grossos e vestem aventais brancos.

Eles podem ser legais, divertidos, inteligentes, irônicos, interessantes, sensíveis… que ver?

No campo da Comunicação, um dos grupos mais criativos e dinâmicos é o dos pesquisadores da cibercultura. Eles são super conectados, ágeis, versáteis. São praticamente uns herois. Formaram até mesmo uma Ciberliga de Pesquisadores Paladinos, e têm seu próprio seriado. Assista aos dois primeiros episódios…

 





aniversariantes

16 11 2009

Para brindar os nativos deste dia, lembro dois ilustres aniversariantes. Primeiro, Diana Krall que parece modelo, americana, cantora pop; mas é loura-com-voz-de-negra, pianista, jazzista e canadense. Depois, José Saramago, que aos 87 não para de martelar o seu teclado e a inspirar quem segue as suas linhas.


Diana Krall canta a clássica The Look of Love, em um envolvente arranjo com orquestra.


José Saramago se emociona ao final da versão cinematográfica de Ensaio sobre a Cegueira.





contando com o ovo lá…

14 11 2009

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o muro caiu e aí…

9 11 2009

Hoje, faz vinte anos que o Muro de Berlim ruiu, iniciando ao menos que simbolicamente uma nova era e fechando o século XX.

Não vou fazer nenhuma análise histórica porque não sou historiador. Prefiro lembrar o trailer de “Adeus Lênin”. Nesta produção, um filho faz de tudo para que a mãe comunista que voltou do coma não descubra que a Alemanha está se reunificando. Ele teme que ela enfarte novamente e não resista. Então, faz milagres para tornar um apartamento de 79 metros quadrados o último refúgio da Alemanha Oriental.

Sensível, engraçado, inteligente, o filme é uma boa maneira de se ver a que nos apegamos para ter o pé na realidade…





27 horas de um turbilhão emocional

8 11 2009

Passei pouco mais de um dia em Piracicaba-Rio Claro este final de semana. Mas foi tudo muito intenso…

Como adiantei, fui ao SESC para uma palestra a convite da Unimep. Lá, me reencontrei com colegas como Paulo Roberto Botão e Belarmino Guimarães, e fui muito bem recebido por turmas de alunos muito interessados e interessantes do curso de Jornalismo. O SESC em Piracicaba tem uma estrutura maravilhosa, que o site da instituição não faz jus. Lá, é tudo lindo, moderno, tudo funcionando muito bem, e lotado de gente da comunidade. Nota-se o belo trabalho da equipe (e aqui, agradeço em particular ao Chico Galvão).

Não bastasse a boa experiência que foi dialogar com os presentes, tive outra ótima surpresa: na plateia, estavam três tias e um tio meu, que não via há muito tempo. Alguns há mais de dez anos. Os parentes – todos na casa dos 60, 70 anos – foram “me prestigiar” porque leram uma reportagem no Jornal Cidade sobre a palestra. Fiquei muito tocado com a surpresa, pois o que a gente quer mesmo é ter o reconhecimento dos mais próximos, não é? Jamais esperaria vê-los ali…

Não bastasse, na mesma noite, revi uma querida amiga dos tempos de universidade, Alessandra Morgado, e que hoje é uma das editoras do Jornal de Piracicaba. Pra terminar, dei uma esticadinha e dormi na casa de minha mãe, o que me permitiu matar saudades do colo e de meu irmão mais novo. Cheguei a almoçar com eles, e corri de volta à base, de onde já escrevo.

Foram pouco mais de 27 horas fora de casa. Inicialmente, para um compromisso profissional, mas que se revelou numa ótima experiência acadêmica e num surpreendente e emocionante retorno ao passado. Eu vi vinte, trinta anos em poucas horas…





tricolor vence o santos e…

25 10 2009

… volta à disputa pelo campeonato.

Depois de 4 a 3 lá na Vila Belmiro, ele está de volta.





sábado: running

17 10 2009

Eliane Elias é uma das artistas brasileiras com carreira mais sólida no jetset do jazz norte-americano.

Como é sábado, como chove lentamente, e como não posso parar, ofereço esta belíssima e contagiante “running”, cuja letra não me sai da cabeça…

Follow the silence
Far from the sadness
Leave all the madness behind
I`ll keep on moving
I`ll keep on running
Passing through hallways
Of who I`ve become
I`ll keep on driving
Into the darkness
Not scared of loving
Turn my lights on
Cause where I`m from
We carry on
And keep on living
And keep on running
Running towards
What I`ve been running from

Ouça!





não é descaso não…

14 10 2009

Se você é um dos poucos leitores fiéis deste blog deve ter notado que ele ficou às moscas por alguns diazinhos… Não é descaso não, viu? É absoluta consumição…

Sim, aproveitei o feriado prolongado e fugi com a família. Foram dias ótimos para recarregar as baterias, aprumar a cabeça e voltar a viver com intensidade cada dia. Quando retornei na terça, ontem, fiquei sem contato internético em casa o que quase me deixou louco com o provedor do serviço. Com uma montanha de coisas por fazer e sem comunicação com o mundo exterior, só podia estressar mesmo…

Pois hoje retomei a vida louca, e na medida do possível estou respondendo emails, lendo feeds, e até mesmo fazendo vazar um ou outro tweet. Normalizarei em breve. Inclusive este blog. Tenha dó e paciência…





seus problemas acabaram…

18 09 2009

Costumo dizer que existe uma ordem no universo que auxilia na resolução dos problemas. Os problemas tendem ser resolvidos para que outros problemas entrem na fila das pendências da vida. Não que eles se solucionem por si, mas porque há uma pressão por novos afazeres.

Perceba que essa ordem no universo não é uma nova forma do velho ditado “O que não tem remédio, remediado está”. Não, isso é conformismo, fatalismo, resignação ou preguiça mesmo. Esta nova ordem é uma das forças que movem o universo e tal. Só.

E porque hoje – como todos os dias, em especial as sextas-feiras – surgiram-me novos problemas, recebi de Joel Minusculi um mapa para a resolução de problemas. Se você quiser se livrar dos seus, siga o esquema abaixo:

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nada de novo, tudo corrido

17 09 2009

Estou com dois o1351_run-forrest-bcu três posts escritos na cabeça para este blog, mas o implacável relógio não dá trégua.
A imagem ao lado sinaliza o mantra do momento (e da minha vida nos últimos 30 anos).





tempos de paz: entre cinema e teatro

12 09 2009

Fiquei fascinado ao assitir “Tempos de Paz”, filme que chegou aos cinemas esta semana e que é, na sua despretensão, uma das mais interessantes realizações brasileiras desde o “Cheiro do ralo” (2007), por exemplo.

É claro que os dois filmes não têm nenhum parentesco, nada que os aproxime do ponto de vista temático ou estético. Enquanto o “Cheiro…” é um exercício de estilo, transgressivo e moldado a ser um cult para certos públicos, “Tempos de Paz” é muito mais um exercício de linguagem, de realização de um cinema mais maduro e consistente nas suas bases.

E essa diferença se dá fundamentalmente porque “Tempos de Paz” é uma versão cinematográfica de uma peça de teatro. Aliás, um texto sensacional, maravilhoso, apontado por boa parte da crítica como o melhor texto do começo do século XXI no país. Do finalzinho de 2001, o texto assinado por Bosco Brasil tem um título mais longo, próprio mesmo do meio: “Novas diretrizes em tempos de paz”. A história não é rocambolesca e não há uma abundância de personagens, pelo contrário. É a justeza, a singeleza e a profundidade de abordagem que tornam o enredo incontornável, insuperável.

Na trama, estamos em abril de 1945. A Segunda Guerra Mundial está no fim, e as forças européias aguardam o armistício. No Brasil, Vargas está no poder, e o Rio de Janeiro ainda é a capital federal. Lá, desembarcam diariamente hordas de refugiados do nazismo e dos horrores da guerra. Um deles é o polonês Clausewitz, que anseia começar uma nova vida no Brasil, onde se fala uma “língua macia, falada apenas por bebês e idosos, por gente que não tem dentes”.

Clausewitz aprendeu o português, mas na imigração, essa condição e outras contradições despertam a suspeita de um burocrata amargurado, embrutecido e descartado pelo sistema. É dele, Segismundo, que Clausewitz depende para receber o visto de permanência no Brasil, e os dois vão travar uma terceira guerra de palavras, aproximando dois mundos e duas vidas separadas pela língua, pela cultura, pelo destino.

Como se vê, não é um filme de ação, mas de reflexão, de emoção. Daí a importância da realização de Daniel Filho, talvez o homem mais importante do cinema nacional hoje, por trás de sucessos de bilheteria como “Se eu fosse você” (1 e 2), “A partilha”, entre outros. Daniel Filho atua, dirige, produz e, de forma naturalmente gregária, reúne em torno de si os melhores profissionais nos desenhos mais comercializáveis do produto cinematográfico. “Tempos de Paz” não deve se tornar um caminhão de dinheiro como “Se eu fosse você 2″, mas é justamente o sucesso arrasador deste que permite e dignifica a execução de um projeto como o de “Tempos…” Com isso, Daniel Filho marca mais uma vez o seu nome na história do cinema nacional, agora com coragem e maturidade.

Mas a importância de “Tempos de Paz” está também na transposição, na tradução, no trabalho de versão de linguagens. O texto é, como já disse, originalmente uma peça teatral, tem o tempo dos palcos, a ação dramática como base, os diálogos fortes e bem cortados como alicerce, o espírito das coxias. Para não perder em substância ou forma, o diretor convidou o próprio Bosco Brasil para escrever o roteiro, o que se revelou na melhor opção. Ajustes foram feitos do ponto de vista formal, permitindo que o público respire de vez em quando, olhando a bela baía carioca, cenas externas aos porões do cais 22, e por aí vai. Foi adicionado mais um elemento, próprio do cinema: um acerto de contas com o passado. Dois personagens que não existem na peça surgem no roteiro cinematográfico e ajudam a conduzir a trama num embrião de thriller. O próprio Daniel Filho interpreta o elemento-chave deste acerto de contas, um médico sem nome que resistiu ao governo de Vargas.

Nos papéis principais estão Dan Stulbach, na pele do imigrante polonês, e Tony Ramos, como Segismundo. Aliás, os realizadores não tiveram pudor em manter elementos bem sucedidos no teatro. Stulbach já vivera o personagem nos palcos, ao lado de Jairo Mattos. E tanto Tony Ramos quanto Stulbach estão so-ber-bos em seus papéis, num duelo de interpretação, que arranca risos nervosos, lágrimas furtivas e uma ânsia pelo desfecho daquele tormento criado entre eles. O público precisa perceber que estamos diante de um momento histórico da interpretação no cinema nacional, e isso não é exagero. Muito ainda vai se falar do duelo entre Ramos e Stulbach, como o encontro de dois atores de gerações diferentes mas que não encenam, mas contracenam, o que não é fácil quando se trata de cinema, uma arte tão cheia de cortes de câmera para enquadramento e de interrupções do fluxo interpretativo dos atores.

Por fim, a música adequada de Egberto Gismonti e uma belíssima homenagem dos realizadores aos refugiados da Segunda Guerra que chegaram ao Brasil e contribuíram para a nossa cultura e desenvolvimento… Por falar em homenagem, Bosco Brasil mantém a trama de seu texto original que resulta numa extraordinária homenagem e reconhecimento ao teatro, para além de sua utilidade num mundo repleto de desgraças… “Tempos de Paz” não nasce como um clássico do cinema nacional. Não parece ter essa pretensão. É uma realização singela, bem acabada, digna e honesta. Mas por isso tudo uma importantíssima obra para a cinematografia de qualquer país.





ventou, choveu, destelhou, destruiu

8 09 2009

A noite passada foi mesmo de pânico, de medo intenso. Ventania, chuva rasgante e raios em toda a parte. Confesso que ainda não tinha visto nada igual. Sabe aquela tempestade em que você imagina São Pedro atirando os raios como lanças? Sabe o temporal coalhado de raios e trovões que estremecem os móveis e as paredes? Pois é, descobri que pior que os estrondos é o raio em total silêncio, precedido e seguido por outros tantos. A noite vira dia, e você fica esperando o rugir, mas ele não vem. A expectativa te mata de tensão…

A Central de Meteorologia da RBS acaba de confirmar que um tornado passou pelo oeste catarinense, sobre a cidade de Guaraciaba, o que matou quatro pessoas e feriu dezenas de outras. Lembro do Catarina, que lambeu meu apartamento em Itapema; lembro das enchentes de novembro passado, que tomaram as ruas e invadiram minha casa; agora, vem esse temporal insano, que deixa a todos alarmados por aqui… Parece marcação… Meu amigo Frank Maia é quem diz…





nanoterrorismo

7 09 2009

De repente, ele atacou. Nem pude ver, notar ou me defender. Rapidamente, afastou meu ânimo, esvaiu minhas forças e me debilitou por completo. De quebra, levou meu bom humor.
Eu estava louco para trabalhar durante o feriado. Planejei ignorar a família, o apelo ao descanso, e me dedicar por completo a pilhas de textos para corrigir, a artigos para escrever, a tarefas inglórias e burocráticas… mas não poderei fazê-lo.

Estou fechando o expediente… Não posso mais…
Maldito ácaro!





antes do 7 de setembro, 7 links

5 09 2009

Enquanto não vem o feriado, compartilho algumas paradas obrigatórias da web na semana…

  • Sérgio Dávila entrevista Chris Anderson, o editor da Wired e autor de Free, livro que discute a economia da gratuidade: aqui.
  • Carlos Castilho, do Código Aberto, escreve sobre auto-regulação, um tema que exige maturidade, consciência e equilíbrio: aqui.
  • Porque as mídias sociais precisam de profissionais éticos. Jason Falls escreve sobre o tema, aqui.
  • C.W. Anderson trata do futuro das notícias em quatro dimensões. Leia aqui.
  • Cibereconomia, uma rede social para difundir a cultura da inovação. Entre aqui.
  • Um dia por dentro do Jornal Nacional, matéria do G1 sobre o lançamento do livro “Jornal Nacional: Modo de Fazer”, de William Bonner. Aqui.
  • Mediactive, o site de Dan Gillmor que pretende criar um guia para democratizar a mídia: aqui.




house cai no samba

30 08 2009

Bota o inglês pra dançar!

Na Folha de S.Paulo de hoje (para assinantes), o ator Hugh Laurie, que interpreta o doutor Gregory House no seriado mais visto no Brasil, fala da estréia da sexta temporada em setembro. Mas não apenas: fala de samba, já que participou do filme Girl from Rio, onde requebra e faz a farra, caindo literalmente no samba.

Como é domingo…





a diferença que um mês faz no futebol

19 08 2009

Há exatamente um mês – no dia 19 de julho -, eu choramingava neste blog sobre a campanha pífia do São Paulo nas diversas competições. Eu dizia: a coisa tá feia pelos lados do Morumbi, e me fazia passar por um momento PVC, destilando estatísticas que mostravam que nos últimos 15 jogos, o Tricolor acumulara 7 derrotas, 5 empates e apenas 3 vitórias.

Um mês depois, a coisa mudou, é verdade. Vamos aos números:

  • 19 de julho: ganhou do Santos em casa.
  • 22 de julho: empatou com o Internacional no Beira-Rio
  • 26 de julho: venceu o Barueri lá.
  • 30 de julho: ganhou do Grêmio por 2 a 1 no Morumbi.
  • 2 de agosto: fez 1 a 0 no Vitória no Barradão.
  • 5 de agosto: 3 a 1 no Botafogo em casa.
  • 9 de agosto: repetiu a dose no mesmo palco contra o Goiás.
  • 16 de agosto: foi à Ilha do Retiro e venceu o Sport por 2 a 1.

Resumo da ópera: 8 jogos, 7 vitórias e um empate. Tem mais a ver com o meu time. Ainda mais que hoje, enfrenta o Fluminense no Morumbi, com o retorno de Rogério Ceni (857 partidas pelo clube). Ceni de volta à cena. A conferir…





um sábado com laurin hill

15 08 2009

Existem dias em que a gente acorda com uma canção martelando a cabeça. Neste sábado, foi Laurin Hill quem soprou-me essa “I find it hard to say”. É uma performance memorável…





dia dos pais: crônica 10

9 08 2009

Giant steps (01/07/2005)

Moro a vinte passos do mar, condição que gera uma certa inveja de uns amigos meus. Tenho um filho lindo, saudável, esperto e feliz, o que também é motivo de inveja. O meu filho tem um ano, e ensaia os primeiros passos. Sozinho, digo. E isso não sei se causa inveja, já que significa algum desapego. Calma, eu explico.

Nas manhãs em que o sol invade a sala de casa (e elas são muitas), eu e meu filho deixamos o sofá e sentamos num quiosque bem em frente à praia. Quando há vento, também há surfistas. Não que a minha praia seja um pico excelente, mas quando o vento entra bem, traz algumas ondas, coisa de metrinho no jargão surfístico. Pois é, eu e o filhote ficamos de camarote assistindo as performances dos mais corajosos. A gente chega a ver bons momentos, é verdade, mas o que mais nos diverte são os tombaços que eles levam. Em terra firme e com preguiça de sobra, nós chegamos a torcer para que a onda seja bem traiçoeira e que passe uma boa rasteira no magrelinho que insiste em se manter em pé naquele pedaço estreito de fibra e parafina. Quando ele cai, a gente se olha e sorri.

Costumo sorri também quando meu filho se precipita no chão por algum motivo e me olha com aqueles olhinhos de porque. Na verdade, são olhos bem grandes e a pergunta que ele me atira na cara é: Como é que eu fui parar aqui? Você não viu não? Quem me derrubou? Pois, eu sorrio para dar confiança. Para mostrar que não foi nada. Como quem diz: Levanta daí, você mais tombos pra cair. E assim, quando ele me olha e encontra o sorriso, repete o gesto, me estica os bracinhos e eu o resgato do chão.

É muito provável que um dia meu filho venha a ser surfista. Adora o mar. Fica vidrado com o vai e vem da água e tem um grande senso de equilíbrio.

Já com onze meses, meu filhote jogava as pernas para frente, de forma coordenada, como se soubesse exatamente o que é andar. Observador que é, ele viu que andar é fácil. Ou pelo menos parece. Aí, esticou os bracinhos na direção dos pólos Norte e Sul e se lançou adiante, equilibrando-se na medida em que se apoiava no que via. Muitas vezes, julgou mal os objetos e se apoiou no que não era firme. Tombo! Outras tantas, calculou mal as distâncias e – no meio do caminho – suas perninhas não agüentaram o próprio peso e ele desabou no chão, exausto. Andar é aprender, ele percebeu. E mais: me ensinou isso.

Não chega a ser nenhuma maldade nossa torcer para a onda derrubar o surfista. Afinal, se ele realmente cair, vai se estatelar num meio flexível, receptivo. Tudo bem, tem a força d’água, o chacoalhar, o caldo e, talvez, a prancha sendo arremessada na cabeça. Claro, isso pode acontecer. Mas a gente não torce por isso não.

Meu filho, agora, ensaia os primeiros passos, sozinho. Não mais se apóia tanto nas coisas e em mim. Na verdade, quando estendo a mão para ele para que caminhemos juntos, ele se esquiva. Quer ir sozinho. É natural. Está conhecendo o mundo, e percebe que não precisa de mim para isso. Andar é aprender, ele me ensina isso. Todos os dias. Quando perde o equilíbrio, projeta-se para frente e para trás, buscando seu centro de gravidade. Às vezes, isso não basta, e ele dá uns passinhos pros lados, corrigindo a postura. Já sabe que é assim, que é preciso ter jogo de cintura, senso de equilíbrio. É assim quando a gente anda. É assim na vida.

Ensinar os filhos a andar é se desapegar. É compreender que eles andarão por si mesmos, que tomarão suas decisões e que despencarão muitas vezes. Dói na gente. Quando eles caem e quando a gente vê que eles já fazem os seus caminhos sozinhos…





dia dos pais: crônica 9

9 08 2009

Na prática, a teoria é outra (24/05/2005)

Esses dias, recebi um email muito útil, de verdadeira prestação de serviços. O assunto já dizia a que vinha: Treinamento para ter filhos. E numa linguagem clara e com evidente intenção pedagógica, trazia quatro exercícios práticos para aqueles que planejam ter bebês em breve. Vou reproduzir alguns trechos, adicionando detalhes que aumentam o grau de dificuldade das tarefas.

Exercício 1. “Vestindo a roupinha: Compre um polvo vivo de bom tamanho e vá colocando, sem machucar a criatura, nesta ordem: fraldas, macaquinho, blusinha, calça, sapatinhos, casaquinho e touquinha. Não é permitido amarrar nenhum dos membros. Tempo de execução da tarefa: uma manhã inteira”.

Nesta primeira prova, tenha muito claro que o seu bebê é mais ágil, mais forte e mais insistente que o polvo do exercício. Tudo bem que o polvo é mais escorregadio e tem ventosas nos tentáculos. Entretanto, seu bebê pode também se tornar escorregadio se estiver na hora da troca de fraldas; seu bebê gira em torno do próprio eixo, podendo ocasionar quedas do trocador, da cama ou de qualquer móvel resistente que você o apóie. (O “resistente” da frase anterior é condição sine qua non para a troca. Se puder fixar algemas no trocador, ajuda). Seu bebê não tem ventosas, mas tem unhas que crescem rápido; seu bebê não tem oito tentáculos, mas na hora isso não faz diferença. E o pior: seu bebê sobrevive fora d’água. Diferente do polvo.

Exercício 2. “Comendo sopinha: Faça um buraquinho num melão, pendure o melão no teto com um barbante comprido e balance-o vigorosamente. Agora tente enfiar a colherinha com a sopa no buraquinho. Continue até ter enfiado pelo menos metade da sopa pelo buraquinho. Despeje a outra metade no seu colo. Não é permitido gritar. Limpe o melão, limpe o chão, limpe as paredes, limpe o teto, limpe os móveis a volta. Vá tomar um banho. Tempo para execução da tarefa: uma tarde inteira”.

O melão sugerido ajuda a treinar. Mas assim que executar a tarefa uma vez, volte a executá-la outras tantas. Afinal, seu bebê tem pelo menos três refeições diárias. E geralmente, assim que você termina de limpar tudo, está na hora da próxima papinha. E melões são mais pacientes.

Exercício 3. “Passeando com a criança: Vá para a pracinha mais próxima. Agache-se e pegue uma bituca de cigarro. Atire fora a bituca, dizendo com firmeza: Não. Agache-se e pegue um palito de picolé sujo. Atire fora o palito, dizendo com firmeza: Não. Agache-se e pegue um papel de bala. Atire fora o papel de bala, dizendo com firmeza: Não. Agache-se e pegue uma barata morta. Atire fora a barata morta, dizendo com firmeza: Não. Faça isso com todas as porcarias que encontrar no chão da pracinha. Tempo para execução: o dia inteiro”.

O exercício proposto ajuda a desenvolver a paciência, mas você deve lembrar o seguinte: seu bebê se move com mais rapidez que o papel de bala, é mais insistente que a bituca, mais resistente que o palito de picolé e mais nojentinho que a barata. Em condições normais de temperatura e pressão e fora do laboratório, você não vai se limitar em dizer “Não!” centenas de vezes. Na pracinha, você terá que impedir que seu bebê enforque uma inofensiva pombinha; terá que resgatá-lo da lata de lixo que ele decide conhecer por dentro; terá que desobstruir a garganta dele, lotada de pedrinhas, tampinhas de garrafa, bitucas de cigarro, papel de bala e outras coisas que ele encontrou no chão, porque alguém atirou longe…

Exercício 4. “Passando à noite com o bebê: Pegue um saco grande de arroz e passeie pela casa com ele no colo das 20 às 21 horas. Deite o saco de arroz. Às 22:00 pegue novamente o saco e passeie com ele até as 23:00. Deite o saco e vá se deitar. Levante às 1:30 e passeie com o saco até 2:00. Deite o saco e você. Levante às 2:15 e vá ver a sessão Corujão porque não consegue mais pegar no sono. Deite às 3:00. Levante às 3:30, pegue o saco de arroz e passeie com ele até as 4:15. Deitem-se os dois (cuidado para não usar o saco de travesseiro). Levante às 6:00 e pratique o exercício de alimentar o melão. Não é permitido chorar”.

Considere que, fora de simulações, o seu saco de arroz se movimenta sem parar, grita e chora sem parar também. Considere que o seu saco de arroz começa a noite pesando cinco quilos e terminará o seu expediente pesando cinqüenta. Eu disse seu expediente, pois você precisará ser rendido por alguém no meio do turno. Você terá que chamar reforços. Como eu disse, seu bebê não pára quieto: move as perninhas e os bracinhos, golpeando seu rosto, puxando seus cabelos, enfiando os dedinhos no seu nariz, boca e olhos. As perninhas atingem repetidas vezes o seu estômago e o baixo ventre. Alerta vermelho para os papais: se quiserem que o seu bebê tenha irmãozinhos, mantenha-os a uma altura segura para ambos (ele e você). E como eu disse também, seu saco de arroz grita e chora sem parar. Nos primeiros dias, os vizinhos sorrirão amarelos e mentirão, dizendo que nem ouviram o escarcéu da madrugada. Vão até tentar afagos no saco de arroz. Nas semanas seguintes, eles já comentarão nos corredores a gritaria da noite anterior. (É fácil perceber este estágio: quando você chega no prédio e os pega conversando baixo, eles logo sorriem amarelos de novo e interrompem o assunto bruscamente). No mês seguinte, as queixas chegam ao síndico. E no outro, você recebe uma advertência do condomínio com cópia do abaixo-assinado que fizeram, tentando te expulsar dali…

Se isso já aconteceu comigo? Os dois primeiros estágios, sim. Mas meus vizinhos não se deram ao trabalho de fazer o tal abaixo-assinado. Agi antes: vedei a boca do meu saco de arroz com uma silver tape!





dia dos pais: crônica 8

9 08 2009

Ladrões de tempo (01/05/2005)

Como é que Shakespeare conseguiu construir sua obra mesmo tendo filhos? Como Marx fez o que fez, apesar das boquinhas miúdas que o perseguiam clamando por comida e atenção? E Einstein, como chegou aonde queria? Como driblaram suas crias e dedicaram-se tão intensamente às suas obras, obtendo tanto êxito?

Vejam: não me refiro a talento, mas a coisas mais prosaicas, como o tempo. Insisto: como é que esses caras conseguiram produzir mesmo tendo nas barras de suas calças aquelas criaturinhas fofinhas, graciosas, barulhentas e de energia inesgotável?

Eu respondo. Eles não tinham aquelas criaturinhas nas barras de suas calças. E assim puderam mergulhar no trabalho, oferecendo à humanidade contribuições de inegável importância.

Embora tivesse filhos pequenos, Shakespeare não hesitou em deixar a família na sua cidade natal para trabalhar com teatro em Londres. Longe de casa, viajava, escrevia, dirigia montagens. E pelo menos uma vez por ano (uau!) voltava a Stratford von Avon para rever os pimpolhos. Nessa distância, escreveu dezenas de poemas (ma-ra-vi-lho-sos!) e 34 peças que mudariam a história da literatura universal e o converteriam na segunda pessoa mais comentada em livros do planeta. (Só perdendo para Jesus Cristo, que, inclusive, nem filhos teve. Pelo menos é o que contam os biógrafos bíblicos).

Karl Marx também não parava em casa. A penca de filhos chorava e a mente do homem fervilhava de idéias, de palavras de força. Eram tempos difíceis e o ainda jovem Marx vendia o almoço para comprar a janta. Com a prole agarrada às suas extremidades, Marx construiu uma filosofia, um modo de compreender o homem no seu tempo. É verdade que os filhos vinham em segundo lugar (as idéias primeiro), mas a humanidade se beneficiou muito com esse pai desnaturado.

Einstein não era muito diferente. Tanto é que nunca chegou a conhecer a primeira filha, Lieserl. A noiva teve a criança na Hungria, enquanto Albert (com apenas 22 aninhos) trabalhava na Suíça. Dizem as más línguas que a menina teria sido criada por outra família, já que o funcionário do escritório de patentes de Berna não tinha onde cair morto.

***

Pois é. Filhos tomam o nosso tempo. Seres adoráveis, são meigos, alegres e fofinhos. Coiotes em pelegos. Sanguessugas disfarçadas em bonecos gordinhos; parasitinhas cruéis que roubam a nossa energia, o pouco tempo que temos e toda a intimidade que mantínhamos com a esposa.

O segredo de Marx, Shakespeare e Einsten está aí. Não só no talento, mas no quanto puderam se dedicar às suas idéias, livres de bebês, fedelhos e adolescentes. Kafka e Nietzsche sequer tiveram filhos. Sartre tampouco. Bob Marley e Pelé, pelo contrário, fizeram muitos, mas tiveram o cuidado de espalhá-los por aí. Com isso, puderam provocar pequenas (e indeléveis) revoluções na música e no futebol.

***

Conhecido meu me escreve com visível desespero. “Sou um desmazelado. Perdi o que me mandou. Minha filha me consome”. Escritor, intelectual e artista, ele não consegue mais trabalhar como antes. Todo o tempo que tinha foi sugado por aquele pacotinho de gente que todos insistem classificar de “gracinha”.

Respondo solidário ao conhecido. Afinal, tenho um bebê de dez meses. E como o meu amigo, também venho sentindo as imensas dificuldades para tomar as rédeas da própria vida. Já não leio o que quero, já não consigo um minuto de paz, de solidão. Escrever, então… vixi! Este texto já deveria ter sido mandado há pelo menos dois meses. Já o escrevi mentalmente há um tempão, mas e a chance de sentar e martelá-lo no teclado? Não tinha jeito…

Meu colega retornou momentaneamente aliviado. Não, aliviado não. Conformado… resignado seria a palavra mais acertada. Me chamou inclusive de “meu irmão na paternidade”. Pois é, o cara – que nem me conhece direito – me chamou de mano. Fiquei feliz, lisonjeado, até porque admiro o trabalho dele. Mas dois minutos depois, percebi que era uma ilusão: ele havia me relevado que fazemos parte de uma mesma fraternidade, uma irmandade macabra: a dos pais recentes. E pior: a dos pais que se preocupam com seus filhos e viram reféns dos pequenos tiranos…

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No final de março, comprei um livro sobre a ditadura militar e os seus efeitos sobre os jornalistas. Livro delicioso, feito com critério e com uma pesquisa muito rigorosa. Sabe quantas páginas pude ler até agora? 39. É. Justo eu que comia livros, consumia sem pudor, atropelando tudo… Não tem dado… fazer o quê? Para tentar continuar a leitura, venho carregando o grosso volume em minha valise para todo lugar que eu vá. A esperança é contar com uma fila de banco, com o trânsito engarrafado, com qualquer oportunidade que me obrigue a ficar longe do meu pequeno capataz e assim possa me deliciar com algumas páginas…

Outro dia me peguei como um marginal. Fi-lo dormir e, na ponta dos pés, coloquei a criaturinha em sua jaula, quer dizer, bercinho. Acompanhei seu sono por alguns segundos, certificando-me de que ele estava apagado mesmo, fora de combate. Ótimo, sorri. Dei três passos em ré, sentei-me numa cadeira de praia e apanhei o livro. Abri na página e mergulhei entre duas frases. Dei uma, duas, três braçadas vigorosas e alcancei um novo parágrafo. Fui adiante, mas – de repente – ouvi algo estranho, um suspiro, um resmungo, sei lá. Voei como um raio para fora do livro e olhei o bercinho: meu senhor estava em pé, sustentando-se nas grades e me lançando um olhar reprovador. Numa fração de segundos, não tive dúvidas. Fechei o livro e o escondi atrás de mim. Me senti um criminoso…

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Mas não é só isso. Descobri outros sintomas que vejo hoje como graves. Venho comendo em pé. Acordo à noite com qualquer barulhinho e saio às cegas pelo corredor em busca de um resmungo ou princípio de choro. Quando em pé, parado e sem nada nos braços, ainda oscilo de um lado a outro feito um pêndulo. Baixei naturalmente o volume da minha voz. Nunca grito. E o pior, o mais grave: tenho feito a barba duas vezes por semana…

A situação não é fácil, mas meus amigos (?) que já têm filhos tentam me acalmar, dizendo que é irreversível.

Sem tempo pra nada; com as idéias e os projetos escorrendo pela cabeça sem as suas devidas realizações; eu continuo levando a vida. A dele e a minha. As queixas são verdadeiras, mas elas mais confundem o meu juízo do que servem de válvula de escape. Se reclamo, ao mesmo tempo me penitencio por isso. Afinal, aquela criança é a melhor coisa que já fiz; o projeto mais acertado de que participei; a coisa mais preciosa que tenho ao meu redor.

O problema não é o tempo, nem a tirania daquele déspota mirim. O problema não está em mim ou no meu egoísmo inalienável. O problema é que os pais de hoje são diferentes dos de antigamente. Nos tempos de Marx, de Shakespeare e de Einstein, era possível deixar as crianças com as mães, sem qualquer remorso ou cobrança emocional. Hoje, um novo lugar foi desenhado para o pai. Uma nova fronteira que nos coloca uma série adicional de compromissos, de contrapartidas familiares, de posicionamentos diante da criação e da educação desses filhotes.

Descobri, então, que a proteção que eu teria que dar ao meu filho não era a mesma que o avô dele imaginou para mim. E que se os pais hoje tivessem seios, guardariam seus filhos bem próximo ao peito. Se fosse assim, essas criaturinhas cândidas não seriam apenas ladrões de tempo: nos tomariam o leite também.