dicionário do cansaço 3

19 11 2009

Cheio de coisas pra fazer: soterrado de afazeres; mergulhado em compromissos; subsumido em tarefas; enterrado em demandas. “Cheio de coisas pra fazer” significa vazio de tempo pra si mesmo. Estado de alerta constante, angústia permanente e a frequente sensação de que seu dia é sempre mais curto em duração que o das pessoas normais.





27 horas de um turbilhão emocional

8 11 2009

Passei pouco mais de um dia em Piracicaba-Rio Claro este final de semana. Mas foi tudo muito intenso…

Como adiantei, fui ao SESC para uma palestra a convite da Unimep. Lá, me reencontrei com colegas como Paulo Roberto Botão e Belarmino Guimarães, e fui muito bem recebido por turmas de alunos muito interessados e interessantes do curso de Jornalismo. O SESC em Piracicaba tem uma estrutura maravilhosa, que o site da instituição não faz jus. Lá, é tudo lindo, moderno, tudo funcionando muito bem, e lotado de gente da comunidade. Nota-se o belo trabalho da equipe (e aqui, agradeço em particular ao Chico Galvão).

Não bastasse a boa experiência que foi dialogar com os presentes, tive outra ótima surpresa: na plateia, estavam três tias e um tio meu, que não via há muito tempo. Alguns há mais de dez anos. Os parentes – todos na casa dos 60, 70 anos – foram “me prestigiar” porque leram uma reportagem no Jornal Cidade sobre a palestra. Fiquei muito tocado com a surpresa, pois o que a gente quer mesmo é ter o reconhecimento dos mais próximos, não é? Jamais esperaria vê-los ali…

Não bastasse, na mesma noite, revi uma querida amiga dos tempos de universidade, Alessandra Morgado, e que hoje é uma das editoras do Jornal de Piracicaba. Pra terminar, dei uma esticadinha e dormi na casa de minha mãe, o que me permitiu matar saudades do colo e de meu irmão mais novo. Cheguei a almoçar com eles, e corri de volta à base, de onde já escrevo.

Foram pouco mais de 27 horas fora de casa. Inicialmente, para um compromisso profissional, mas que se revelou numa ótima experiência acadêmica e num surpreendente e emocionante retorno ao passado. Eu vi vinte, trinta anos em poucas horas…





uma palestra em piracicaba

5 11 2009

Amanhã, dou uma passadinha por Piracicaba – no interior de São Paulo – para uma palestra no SESC da cidade. O evento é também uma iniciativa do curso de Jornalismo da Unimep, e começa às 20 horas. Vou falar sobre ética jornalística, notícias em tempo de novas mídias, redes sociais, e os impactos disso tudo na conduta dos jornalistas. Uma parte desses assuntos está no meu Ética no Jornalismo, que segundo a organização do evento, será lançado lá também…

Faz tempo que não volto a Piracicaba. Faz tempo que não revejo amigos da área. Para um caipira de Rio Claro como eu, será um imenso prazer voltar a falar com “meu sotaque original de fábrica”…





sábado: running

17 10 2009

Eliane Elias é uma das artistas brasileiras com carreira mais sólida no jetset do jazz norte-americano.

Como é sábado, como chove lentamente, e como não posso parar, ofereço esta belíssima e contagiante “running”, cuja letra não me sai da cabeça…

Follow the silence
Far from the sadness
Leave all the madness behind
I`ll keep on moving
I`ll keep on running
Passing through hallways
Of who I`ve become
I`ll keep on driving
Into the darkness
Not scared of loving
Turn my lights on
Cause where I`m from
We carry on
And keep on living
And keep on running
Running towards
What I`ve been running from

Ouça!





os professores e os mestres

15 10 2009

Sim, hoje é o dia dos professores. Data em que é difícil desviar de reportagens e abordagens que fujam do lugar-comum. E são dois basicamente: as homenagens e “o pouco a comemorar…” neste dia. Isso cansa, sabe?

Sou de família de professores. Minha é professora, tenho irmão e sogra que lecionam. Duas cunhadas também dão aulas. Tenho outro irmão que trabalha com educação, e tios e tias ligados ao ramo. Então, meu cotidiano sempre foi permeado por essa fauna estranha, curiosa, interessante e envolvente que sãos professores. Mas a gente não aprende só na escola. Aliás, é na sala de aula que a gente descobre que há professores e mestres. Os primeiros são importantes, cotidianos, ordinários, necessários. Já os mestres são mais raros, mais influentes, menos necessários, mas mais decisivos em nossas vidas. Continuo encontrando mestres por aí, por onde quer que eu ande. Mas alguns eu trago comigo: dona Ângela – a professora do “parquinho” -, dona Regina - a mestra dedicada -, Manoel – uma influência e um exemplo -, Fulanetti – a mística de um bom orador -, Pedro - uma admiração e uma amizade -, dona Marlene – que ensina a viver até hoje…

Mais importante que homenagear é reconhecer.





não é descaso não…

14 10 2009

Se você é um dos poucos leitores fiéis deste blog deve ter notado que ele ficou às moscas por alguns diazinhos… Não é descaso não, viu? É absoluta consumição…

Sim, aproveitei o feriado prolongado e fugi com a família. Foram dias ótimos para recarregar as baterias, aprumar a cabeça e voltar a viver com intensidade cada dia. Quando retornei na terça, ontem, fiquei sem contato internético em casa o que quase me deixou louco com o provedor do serviço. Com uma montanha de coisas por fazer e sem comunicação com o mundo exterior, só podia estressar mesmo…

Pois hoje retomei a vida louca, e na medida do possível estou respondendo emails, lendo feeds, e até mesmo fazendo vazar um ou outro tweet. Normalizarei em breve. Inclusive este blog. Tenha dó e paciência…





dicionário do cansaço 2

8 10 2009

COL275EXAUSTOMortinho: estado lastimável e cada vez mais frequente do gênero humano. A despeito do que parece, não se trata do diminutivo masculino de sem vida.

Mortinho é exaurido, exausto, cansado, sugado, consumido.





dicionário do cansaço 1

7 10 2009

Sherpa: habitante de região montanhosa do Nepal, sim lá no Himalaia, que auxilia os montanhistas em suas subidas e descidas. Auxiliar quer dizer carregar mochilas, pacotes, pertences e o que mais for necessário.

O sherpa é um nativo forte, resistente, plenamente adaptado àquelas localidades onde o ar é rarefeito, as condições climáticas são hostis, os perigos são muitos e a vida não vale quase nada.

Neste meu Dicionário do Cansaço, estar cansado como um sherpa é como ter subido a montanha mais alta do mundo com um peso incomensurável nas costas…





seus problemas acabaram…

18 09 2009

Costumo dizer que existe uma ordem no universo que auxilia na resolução dos problemas. Os problemas tendem ser resolvidos para que outros problemas entrem na fila das pendências da vida. Não que eles se solucionem por si, mas porque há uma pressão por novos afazeres.

Perceba que essa ordem no universo não é uma nova forma do velho ditado “O que não tem remédio, remediado está”. Não, isso é conformismo, fatalismo, resignação ou preguiça mesmo. Esta nova ordem é uma das forças que movem o universo e tal. Só.

E porque hoje – como todos os dias, em especial as sextas-feiras – surgiram-me novos problemas, recebi de Joel Minusculi um mapa para a resolução de problemas. Se você quiser se livrar dos seus, siga o esquema abaixo:

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nada de novo, tudo corrido

17 09 2009

Estou com dois o1351_run-forrest-bcu três posts escritos na cabeça para este blog, mas o implacável relógio não dá trégua.
A imagem ao lado sinaliza o mantra do momento (e da minha vida nos últimos 30 anos).





semana que vem o bicho vai pegar

14 09 2009

Sabe quando você reclama que tudo parece desabar sobre sua cabeça de repente?

Sabe quando seu maior inimigo é o relógio?

Já pensou em se clonar para estar em vários lugares ao mesmo tempo?

Não, não adianta se queixar. Ainda não conseguiram inventar uma forma de ocupar diversos espaços simultaneamente, nem ao menos aprimoraram as técnicas de clonagem a ponto de nos permitir desfrutar de uma festa e aplicar uma prova na mesma hora…

Por isso e enxotando de uma vez o Sistema Automático de Reclamação, aviso: apertem os cintos porque a semana que vem é uma correria só!

De 21 a 25, acontece a 8ª Semana do Jornalismo, aqui na UFSC.

De 21 a 22, acontece na Feevale o 3º Seminário Blogs, Redes Sociais e Comunicação Digital.

De 25 a 27, acontece no 8º Encontro Nacional de Jornalistas de Assessoria de Comunicação (Enjac), no Rio de Janeiro.

Tentando jogar nas onze, parto na segunda, 21, para Novo Hamburgo (RS) para o Seminário de Blogs, de onde retorno no dia seguinte. Na quarta, quinta e sexta (23, 24 e 25), vou a Florianópolis (SC) para aproveitar um pouquinho da Semana do Jornalismo. No sábado (26), rumo para Teresópolis (RJ) para o Enjac, de onde volto no dia seguinte.

Neste ritmo, muito possivelmente, na segunda, 28, minha mulher me bota pra fora de casa…





tempos de paz: entre cinema e teatro

12 09 2009

Fiquei fascinado ao assitir “Tempos de Paz”, filme que chegou aos cinemas esta semana e que é, na sua despretensão, uma das mais interessantes realizações brasileiras desde o “Cheiro do ralo” (2007), por exemplo.

É claro que os dois filmes não têm nenhum parentesco, nada que os aproxime do ponto de vista temático ou estético. Enquanto o “Cheiro…” é um exercício de estilo, transgressivo e moldado a ser um cult para certos públicos, “Tempos de Paz” é muito mais um exercício de linguagem, de realização de um cinema mais maduro e consistente nas suas bases.

E essa diferença se dá fundamentalmente porque “Tempos de Paz” é uma versão cinematográfica de uma peça de teatro. Aliás, um texto sensacional, maravilhoso, apontado por boa parte da crítica como o melhor texto do começo do século XXI no país. Do finalzinho de 2001, o texto assinado por Bosco Brasil tem um título mais longo, próprio mesmo do meio: “Novas diretrizes em tempos de paz”. A história não é rocambolesca e não há uma abundância de personagens, pelo contrário. É a justeza, a singeleza e a profundidade de abordagem que tornam o enredo incontornável, insuperável.

Na trama, estamos em abril de 1945. A Segunda Guerra Mundial está no fim, e as forças européias aguardam o armistício. No Brasil, Vargas está no poder, e o Rio de Janeiro ainda é a capital federal. Lá, desembarcam diariamente hordas de refugiados do nazismo e dos horrores da guerra. Um deles é o polonês Clausewitz, que anseia começar uma nova vida no Brasil, onde se fala uma “língua macia, falada apenas por bebês e idosos, por gente que não tem dentes”.

Clausewitz aprendeu o português, mas na imigração, essa condição e outras contradições despertam a suspeita de um burocrata amargurado, embrutecido e descartado pelo sistema. É dele, Segismundo, que Clausewitz depende para receber o visto de permanência no Brasil, e os dois vão travar uma terceira guerra de palavras, aproximando dois mundos e duas vidas separadas pela língua, pela cultura, pelo destino.

Como se vê, não é um filme de ação, mas de reflexão, de emoção. Daí a importância da realização de Daniel Filho, talvez o homem mais importante do cinema nacional hoje, por trás de sucessos de bilheteria como “Se eu fosse você” (1 e 2), “A partilha”, entre outros. Daniel Filho atua, dirige, produz e, de forma naturalmente gregária, reúne em torno de si os melhores profissionais nos desenhos mais comercializáveis do produto cinematográfico. “Tempos de Paz” não deve se tornar um caminhão de dinheiro como “Se eu fosse você 2″, mas é justamente o sucesso arrasador deste que permite e dignifica a execução de um projeto como o de “Tempos…” Com isso, Daniel Filho marca mais uma vez o seu nome na história do cinema nacional, agora com coragem e maturidade.

Mas a importância de “Tempos de Paz” está também na transposição, na tradução, no trabalho de versão de linguagens. O texto é, como já disse, originalmente uma peça teatral, tem o tempo dos palcos, a ação dramática como base, os diálogos fortes e bem cortados como alicerce, o espírito das coxias. Para não perder em substância ou forma, o diretor convidou o próprio Bosco Brasil para escrever o roteiro, o que se revelou na melhor opção. Ajustes foram feitos do ponto de vista formal, permitindo que o público respire de vez em quando, olhando a bela baía carioca, cenas externas aos porões do cais 22, e por aí vai. Foi adicionado mais um elemento, próprio do cinema: um acerto de contas com o passado. Dois personagens que não existem na peça surgem no roteiro cinematográfico e ajudam a conduzir a trama num embrião de thriller. O próprio Daniel Filho interpreta o elemento-chave deste acerto de contas, um médico sem nome que resistiu ao governo de Vargas.

Nos papéis principais estão Dan Stulbach, na pele do imigrante polonês, e Tony Ramos, como Segismundo. Aliás, os realizadores não tiveram pudor em manter elementos bem sucedidos no teatro. Stulbach já vivera o personagem nos palcos, ao lado de Jairo Mattos. E tanto Tony Ramos quanto Stulbach estão so-ber-bos em seus papéis, num duelo de interpretação, que arranca risos nervosos, lágrimas furtivas e uma ânsia pelo desfecho daquele tormento criado entre eles. O público precisa perceber que estamos diante de um momento histórico da interpretação no cinema nacional, e isso não é exagero. Muito ainda vai se falar do duelo entre Ramos e Stulbach, como o encontro de dois atores de gerações diferentes mas que não encenam, mas contracenam, o que não é fácil quando se trata de cinema, uma arte tão cheia de cortes de câmera para enquadramento e de interrupções do fluxo interpretativo dos atores.

Por fim, a música adequada de Egberto Gismonti e uma belíssima homenagem dos realizadores aos refugiados da Segunda Guerra que chegaram ao Brasil e contribuíram para a nossa cultura e desenvolvimento… Por falar em homenagem, Bosco Brasil mantém a trama de seu texto original que resulta numa extraordinária homenagem e reconhecimento ao teatro, para além de sua utilidade num mundo repleto de desgraças… “Tempos de Paz” não nasce como um clássico do cinema nacional. Não parece ter essa pretensão. É uma realização singela, bem acabada, digna e honesta. Mas por isso tudo uma importantíssima obra para a cinematografia de qualquer país.





ventou, choveu, destelhou, destruiu

8 09 2009

A noite passada foi mesmo de pânico, de medo intenso. Ventania, chuva rasgante e raios em toda a parte. Confesso que ainda não tinha visto nada igual. Sabe aquela tempestade em que você imagina São Pedro atirando os raios como lanças? Sabe o temporal coalhado de raios e trovões que estremecem os móveis e as paredes? Pois é, descobri que pior que os estrondos é o raio em total silêncio, precedido e seguido por outros tantos. A noite vira dia, e você fica esperando o rugir, mas ele não vem. A expectativa te mata de tensão…

A Central de Meteorologia da RBS acaba de confirmar que um tornado passou pelo oeste catarinense, sobre a cidade de Guaraciaba, o que matou quatro pessoas e feriu dezenas de outras. Lembro do Catarina, que lambeu meu apartamento em Itapema; lembro das enchentes de novembro passado, que tomaram as ruas e invadiram minha casa; agora, vem esse temporal insano, que deixa a todos alarmados por aqui… Parece marcação… Meu amigo Frank Maia é quem diz…





nanoterrorismo

7 09 2009

De repente, ele atacou. Nem pude ver, notar ou me defender. Rapidamente, afastou meu ânimo, esvaiu minhas forças e me debilitou por completo. De quebra, levou meu bom humor.
Eu estava louco para trabalhar durante o feriado. Planejei ignorar a família, o apelo ao descanso, e me dedicar por completo a pilhas de textos para corrigir, a artigos para escrever, a tarefas inglórias e burocráticas… mas não poderei fazê-lo.

Estou fechando o expediente… Não posso mais…
Maldito ácaro!





3 clipes que não me saem da memória

22 08 2009

Não é melancolia, não. Mas é que existem coisas que a gente não esquece nunca. Ainda bem…

Tempo perdido

Angra dos Reis

Há tempos





a diferença que um mês faz no futebol

19 08 2009

Há exatamente um mês – no dia 19 de julho -, eu choramingava neste blog sobre a campanha pífia do São Paulo nas diversas competições. Eu dizia: a coisa tá feia pelos lados do Morumbi, e me fazia passar por um momento PVC, destilando estatísticas que mostravam que nos últimos 15 jogos, o Tricolor acumulara 7 derrotas, 5 empates e apenas 3 vitórias.

Um mês depois, a coisa mudou, é verdade. Vamos aos números:

  • 19 de julho: ganhou do Santos em casa.
  • 22 de julho: empatou com o Internacional no Beira-Rio
  • 26 de julho: venceu o Barueri lá.
  • 30 de julho: ganhou do Grêmio por 2 a 1 no Morumbi.
  • 2 de agosto: fez 1 a 0 no Vitória no Barradão.
  • 5 de agosto: 3 a 1 no Botafogo em casa.
  • 9 de agosto: repetiu a dose no mesmo palco contra o Goiás.
  • 16 de agosto: foi à Ilha do Retiro e venceu o Sport por 2 a 1.

Resumo da ópera: 8 jogos, 7 vitórias e um empate. Tem mais a ver com o meu time. Ainda mais que hoje, enfrenta o Fluminense no Morumbi, com o retorno de Rogério Ceni (857 partidas pelo clube). Ceni de volta à cena. A conferir…





um domingo com radiohead

16 08 2009

Porque é domingo e porque a preguiça tenta me tirar da frente do trabalho…
Porque é domingo e porque Radiohead é genial e depressivo, mas lírico e único…

Por isso, me lembro de dois clipes:

Paranoid Android

No surprises





um sábado com laurin hill

15 08 2009

Existem dias em que a gente acorda com uma canção martelando a cabeça. Neste sábado, foi Laurin Hill quem soprou-me essa “I find it hard to say”. É uma performance memorável…





como é que se diz “adeus”?

13 08 2009

Sim, de uma forma ou de outra, este é um post de despedida

Ontem, foi minha última noite de aulas na Univali, instituição onde leciono há dez anos. Não foi uma daquelas aulas especiais que você prepara há muito tempo, nem uma prova inesquecível. Foi uma noite comum. Atendi alunos, tirei dúvidas, conversamos sobre projetos de final de curso, sobre pesquisas a serem realizadas, temas para reportagens, enfim, foi uma noite comum. Como se nada estivesse para acontecer.

Na verdade, nada estava mesmo. Apenas para mim, afinal sou eu quem estou me despedindo.

A noite voou, falei com muita gente, e voltei para casa com um sentimento de que algo não havia se fechado. Pelo menos inconscientemente, eu esperava um fechamento nas aulas de minha parte, uma despedida formal, nem sei mais. Mas hoje cedo, tudo me pareceu tão perfeito e bem amarrado! Ter a última noite como uma noite qualquer é ter a clareza de que a vida continua, de que as coisas mais importantes estão nos detalhes de todos os dias, em toda hora, e que não se pode perder a chance de aproveitar tudo isso. Ter a última noite sem uma despedida formal é muito melhor, pois me permite fazer de visitas extemporâneas, acontecimentos corriqueiros e informais.

Mas por que tantas sentimentalidades neste post?

Ora, completei dez anos de Univali no começo deste mês. Dei aulas para mais de mil alunos neste tempo todo. Lecionei em onze disciplinas diferentes. Orientei quarenta alunos na graduação e pós-graduação. Trabalhei muito neste tempo todo, muito mesmo. Enfim, aprendi e vivi demais nesses anos todos. Foi aqui que aprendi a ser o que sou no mundo da pesquisa, do ensino, na esfera da academia. Tive aulas com alunos, com funcionários, com colegas professores, que puderam me ensinar as coisas do Jornalismo, as coisas da vida, a matéria dos sonhos, os conteúdos secretos dos seres humanos… Aprendi e cresci! E sou muito grato por tudo isso. Dez anos são uma vida, e não se joga tudo isso assim pela janela…

Mas não há tristeza, mas satisfação. Não há dor, mas desapego. Não há incômodo, mas o sentimento-sem-preço de missão completa, de ciclo concluído.

Gosto das metáforas que fazem da vida uma jornada. Isso nos faz ver que a viagem interessa muito mais do que os destinos. Levando isso em consideração, me vejo dentro de um trem em movimento. Estou deixando um vagão para ingressar em outro, mas a direção é a mesma, a composição está ali. Diferente de outras despedidas, esta não é como uma morte. Não, é uma continuidade. Sigo para um outro vagão da longa composição, mas me alegra ver que o vagão que estou deixando continua forte, em movimento, no mesmo sentido. Não há porque dizer “adeus”. Digo então: “boa viagem para todos nós!”





dia dos pais: crônica 10

9 08 2009

Giant steps (01/07/2005)

Moro a vinte passos do mar, condição que gera uma certa inveja de uns amigos meus. Tenho um filho lindo, saudável, esperto e feliz, o que também é motivo de inveja. O meu filho tem um ano, e ensaia os primeiros passos. Sozinho, digo. E isso não sei se causa inveja, já que significa algum desapego. Calma, eu explico.

Nas manhãs em que o sol invade a sala de casa (e elas são muitas), eu e meu filho deixamos o sofá e sentamos num quiosque bem em frente à praia. Quando há vento, também há surfistas. Não que a minha praia seja um pico excelente, mas quando o vento entra bem, traz algumas ondas, coisa de metrinho no jargão surfístico. Pois é, eu e o filhote ficamos de camarote assistindo as performances dos mais corajosos. A gente chega a ver bons momentos, é verdade, mas o que mais nos diverte são os tombaços que eles levam. Em terra firme e com preguiça de sobra, nós chegamos a torcer para que a onda seja bem traiçoeira e que passe uma boa rasteira no magrelinho que insiste em se manter em pé naquele pedaço estreito de fibra e parafina. Quando ele cai, a gente se olha e sorri.

Costumo sorri também quando meu filho se precipita no chão por algum motivo e me olha com aqueles olhinhos de porque. Na verdade, são olhos bem grandes e a pergunta que ele me atira na cara é: Como é que eu fui parar aqui? Você não viu não? Quem me derrubou? Pois, eu sorrio para dar confiança. Para mostrar que não foi nada. Como quem diz: Levanta daí, você mais tombos pra cair. E assim, quando ele me olha e encontra o sorriso, repete o gesto, me estica os bracinhos e eu o resgato do chão.

É muito provável que um dia meu filho venha a ser surfista. Adora o mar. Fica vidrado com o vai e vem da água e tem um grande senso de equilíbrio.

Já com onze meses, meu filhote jogava as pernas para frente, de forma coordenada, como se soubesse exatamente o que é andar. Observador que é, ele viu que andar é fácil. Ou pelo menos parece. Aí, esticou os bracinhos na direção dos pólos Norte e Sul e se lançou adiante, equilibrando-se na medida em que se apoiava no que via. Muitas vezes, julgou mal os objetos e se apoiou no que não era firme. Tombo! Outras tantas, calculou mal as distâncias e – no meio do caminho – suas perninhas não agüentaram o próprio peso e ele desabou no chão, exausto. Andar é aprender, ele percebeu. E mais: me ensinou isso.

Não chega a ser nenhuma maldade nossa torcer para a onda derrubar o surfista. Afinal, se ele realmente cair, vai se estatelar num meio flexível, receptivo. Tudo bem, tem a força d’água, o chacoalhar, o caldo e, talvez, a prancha sendo arremessada na cabeça. Claro, isso pode acontecer. Mas a gente não torce por isso não.

Meu filho, agora, ensaia os primeiros passos, sozinho. Não mais se apóia tanto nas coisas e em mim. Na verdade, quando estendo a mão para ele para que caminhemos juntos, ele se esquiva. Quer ir sozinho. É natural. Está conhecendo o mundo, e percebe que não precisa de mim para isso. Andar é aprender, ele me ensina isso. Todos os dias. Quando perde o equilíbrio, projeta-se para frente e para trás, buscando seu centro de gravidade. Às vezes, isso não basta, e ele dá uns passinhos pros lados, corrigindo a postura. Já sabe que é assim, que é preciso ter jogo de cintura, senso de equilíbrio. É assim quando a gente anda. É assim na vida.

Ensinar os filhos a andar é se desapegar. É compreender que eles andarão por si mesmos, que tomarão suas decisões e que despencarão muitas vezes. Dói na gente. Quando eles caem e quando a gente vê que eles já fazem os seus caminhos sozinhos…