o muro caiu e aí…

9 11 2009

Hoje, faz vinte anos que o Muro de Berlim ruiu, iniciando ao menos que simbolicamente uma nova era e fechando o século XX.

Não vou fazer nenhuma análise histórica porque não sou historiador. Prefiro lembrar o trailer de “Adeus Lênin”. Nesta produção, um filho faz de tudo para que a mãe comunista que voltou do coma não descubra que a Alemanha está se reunificando. Ele teme que ela enfarte novamente e não resista. Então, faz milagres para tornar um apartamento de 79 metros quadrados o último refúgio da Alemanha Oriental.

Sensível, engraçado, inteligente, o filme é uma boa maneira de se ver a que nos apegamos para ter o pé na realidade…





palestra com pesquisadores portugueses na ufsm

26 10 2009

O Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da UFSM promove no próximo dia 06 de novembro, sexta-feira, o II Ciclo de Debates “Mídia e Sociedade”. As palestras iniciam às 14h, no Auditório do Departamento de Química, no campus. O evento, que tem o apoio do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da PUCRS, terá nesta edição palestras com os pesquisadores Moisés Martins e Jean-Martin Rabot, ambos do Centro de Estudos em Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho, em Portugal.

Martins irá abordar o tema “Espaço Público e Media: da crise do Estado à crise da cultura”, enquanto Rabot irá discorrer sobre “As figurações da monstruosidade nos media”. As inscrições devem ser feitas antecipadamente na Secretaria do Mestrado, no Prédio 21 do campus. O evento é destinado a estudantes de Graduação e Pós-Graduação, professores e profissionais das áreas da Comunicação, Ciências Sociais, Filosofia, História, Letras, Psicologia e demais interessados.

EVENTO: II Ciclo de Debates “Mídia e Sociedade”, do Mestrado em Comunicação Midiática da UFSM
DATA: 06/11/2009 – sexta-feira
LOCAL: Auditório do Departamento de Química – UFSM (campus)
HORÁRIO: 14h
INSCRIÇÕES: Na Secretaria do Mestrado – Prédio 21, a R$ 5,00 (com direito a certificado de participação) ou pelo email eventos.ppgcomufsm@gmail.com, com nome, RG, curso, instituição e nome do evento. A inscrição feita por email poderá ser paga na hora da palestra.

PALESTRANTES:

Moisés Martins
Professor catedrático da Universidade do Minho e Diretor do Centro de Estudos em Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho (CECS).
Tema: Espaço Público e Media: da crise do Estado à crise da cultura

Jean-Martin Rabot
Professor de Sociologia e Investigador no CECS (Centro de Estudos em Comunicação e Sociedade) do Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho, Braga – Portugal.
Tema: As figurações da monstruosidade nos media





presentinhos de sexta

23 10 2009

Como o final de semana se aproxima, deixo três presentinhos:

1. A reconstrução do jornalismo americano. Relatório recente – do último dia 20 -, assinado pelos professores Leonard Downie Jr e Michael Schudson, das universidades do Arizona e de Columbia. Em inglês, em PDF e com 100 páginas. Aqui.

2. A emergência das redes sociais e os seus impactos no jornalismo convencional. Estudo recente sobre a realidade do Reino Unido assinado pelo Reuters Institute for the Study of Journalism. Em inglês, em PDF e com 60 páginas. Aqui.

3. Recentemente, tratei da Ley de Medios argentina, polêmico marco regulatório que pode alterar sensivelmente o mercado audiovisual daquele país. Aliás, a lei está aqui. Em espanhol, em PDF e com 25 páginas.





por que a lei argentina de meios assusta?

18 10 2009

coloquio_maria_victoriaO Senado argentino aprovou recentemente uma nova lei para os meios audiovisuais, estabelecendo restrições à propriedade e impondo novas regras no mercado midiático local. As medidas são polêmicas, e contrapuseram não apenas oposicionistas e aliados da presidente Cristina Kirchner, mas também setores organizados da sociedade que tentam democratizar os meios na Argentina e grandes conglomerados de mídia.

Antes de ser aprovada pelos senadores, a nova lei foi intensamente discutida. Aprovada, pode trazer modificações sensíveis no panorama e ainda contagiar países vizinhos, como Brasil, e aprovarem dispositivos semelhantes que ataquem oligopólios. Por aqui, a gritaria não foi pouca. Para o Estadão, a medida é um atentado do governo para cercear a mídia, principalmente o poderoso grupo Clarín, que está em rota de colisão com os Kirchner há meses.

Mas há setores que vêem a nova lei argentina com muito bons olhos. Maria Victoria Richter é jornalista e militou durante anos no Observatorio de Medios da União dos Trabalhadores da Imprensa de Buenos Aires (UTPBA). Atualmente, Victoria é assessora da senadora Maria Rosa Díaz, que nem é partidária do governo, mas votou a favor da “Ley de Medios”. A jornalista argentina acompanhou de perto a tramitação do projeto.

Veja trechos da entrevista.

1. Por que o processo de aprovado da “Ley de Medios” não foi um processo tranquilo?
Por que existem empresas que concentram o mercado audiovisual e não estavam dispostas a dividir o espectro radioelétrico com outras lógicas de comunicação.

2. A quem interessa existir uma lei como essa?
Interessa à comunicação sem fins lucrativos, aos trabalhadores dos meios, jornalistas, atores, músicos, cineastas e produtores argentinos que estão contemplados na lei. Deveria interessar à audiência, já que lhe é garantido o acesso a outras formas de comunicação, sem interesse comercial exclusivamente e incentivando os meios públicos.

3. E por que tanto temor ou indisposição com a lei?
O medo é de um setor da oposição que conta com apoio dos principais jornais, pertencentes aos mesmos grupos afetados, o que cria um clima de tensão compreensível quando são atingidos interesses econômicos tão fortes.

4. Quais são os aspectos positivos da lei?
É uma boa lei, amparada na legislação internacional em matéria de comunicação, e que recebeu o apoio de centenas de organizações sociais, de amplos setores da cultura, agremiações e universidades, além da relatoria de Liberdade de Expressão da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da Unesco.

5. Que tipo de transformações a nova lei pode trazer para o cenário de comunicações argentino?
Se for aplicada, a lei pode transformar radicalmente o mapa dos meios locais. Além de gerar múltiplas fontes de trabalho e garantir um acesso mais democrático às concessões de radiodifusão. Para além do sucesso de sua aplicação, que implicará novas lutas por parte dos movimentos sociais, esta lei já gerou uma nova possibilidade de discussão sobre o papel social dos meios de comunicação. Pela primeira vez na Argentina, discute-se que o espectro radioelétrico pertence a todos e que o setor privado não é proprietário do espaço comum, ainda que possa usá-lo.

6. Você assessora uma senadora que votou a favor da lei. Como é a sua posição frente o governo Kirchner?
Minha senadora, María Rosa Díaz, representa uma província argentina – a Terra do Fogo – que tem uma relação complicada com o governo. Mas isso não impediu que reconhecesse uma boa iniciativa que estabelece uma nova norma que beneficia setores que não têm voz nos meios massivos de comunicação. Trata-se de uma lei que vai transcender governos e que resulta num avanço da democratização do espectro.

7. Os Kirchner querem mesmo fazer calar os meios de comunicação?
Os Kirchner têm uma forma questionável de gerir a coisa pública, sem muita transparência e com várias denúncias de exercer o poder pressionando aqueles que não se alinham às suas políticas. Eles têm um discurso com muitas ideias progressistas, mas sua prática nem sempre o acompanha. No caso da lei de serviços de comunicação audiovisual, muitos que não comungam de suas particulares visões decidiram acompanhá-los porque reivindicamos historicamente (desde a redemocratização) uma lei que garantisse o acesso de todos os setores no processo da comunicação.





jornalismo e política: evento em portugal

9 10 2009

Minha amiga Mônica Delicato manda a dica, que divido aqui: acontece em 11 de dezembro na Universidade Fernando Pessoa, no Porto, Portugal, o evento “Jornalismo e Política: a cobertura jornalística das eleições de 2009″.

Pelo programa – que você lê abaixo -, será um dia intenso para reavaliar as complexas e sempre tensas relações entre políticos e redações.

Mais informações aqui.

09:30h Abertura
Jorge Pedro Sousa (Universidade Fernando Pessoa e CIMJ)
Salvato Trigo (Reitor da Universidade Fernando Pessoa)
Nelson Traquina (Universidade Nova de Lisboa e CIMJ)

10:00h Comunicação política e jornalismo

Moderador :
Nelson Traquina (Universidade Nova de Lisboa e CIMJ)
Conferencistas :
João Carlos Correia (Universidade da Beira Interior)
Fermín Galindo (Universidade de Santiago de Compostela)
Brian Loader (Universidade de York)
Comentadora :
Sónia Lamy (ESEP e CIMJ)

11:30h Intervalo


11:45h A cobertura jornalística das eleições 2009

Moderador :
Ricardo Jorge Pinto (Universidade Fernando Pessoa e jornal Expresso)
Conferencistas :
Pedro Diniz de Sousa (Universidade Nova de Lisboa e CIMJ)
Ana Cabrera (CIMJ)
Isabel Férin (Universidade de Coimbra e CIMJ)
Maria José Brites (CIMJ/FCT e Universidade Lusófona do Porto)
Comentadora :
Estrela Serrano (ERC e CIMJ)

13:30h Intervalo


15:30h Novos media, cidadania política e campanhas eleitorais

Moderadora :
Catarina Passos (Universidade Fernando Pessoa)
Conferencistas :
António Granado (Universidade Nova de Lisboa e jornal Público)
Francisco Rui Cádima (Universidade Nova de Lisboa)
Vasco Ribeiro (Universidade do Porto)
João Miguel Teixeira Lopes (Universidade do Porto)
Comentador :
Joaquim Fidalgo (Universidade do Minho)





sobre otimismo e o ceticismo jornalístico

2 10 2009

O Rio de Janeiro acaba de ser escolhido como sede dos Jogos Olímpicos de 2016, algo inédito. Na semana que nos separou do anúncio oficial do Comitê Olímpico Internacional, o noticiário foi recheado de matérias sobre o suspense da escolha. Houve reportagens mostrando as belezas naturais da cidade, as obras previstas, as vantagens obtidas, o possível legado. Houve ainda críticas, desconfiança, temores. Gente especializada ou não se manifestou. De repente, a pergunta capital era: você é a favor ou contra a vinda das Olimpíadas para o Brasil?

É natural que isso ocorra. É até esperado. O jornalismo também vive de polêmicas, também se alimenta do confronto de opiniões, da diversidade de pontos de vista. Bem como é natural que houvesse setores da imprensa que fossem notadamente avessos à escolha do Rio. O caso mais evidente disso é a ESPNBrasil, canal da TVa cabo. Lá, nomes de peso como José Trajano e Juca Kfouri eram claros em ver problemas com o “projeto Rio 2016″, tendo em vista o legado dos Jogos Pan-Americanos passados. Não se trata de birra, de dor de cotovelo. O canal é dedicado à cobertura de esportes, faz jornalismo sério, pega no pé de dirigentes, investiga, produz programas especiais, “passando a limpo”. Diferente de outros canais, de outras emissoras de TV, que também nutrem interesses neste tipo de evento.

O jornalismo é uma atividade, cujo DNA é historicamente contaminado pela crítica, pelo ceticismo, pela dúvida. Questionar, inquirir, pressionar são comuns no cotidiano da área. Jornalistas cercam suas fontes, desconfiam de suas declarações, tentam confirmar as informações obtidas. Esse ceticismo ajuda a conferir ao jornalismo uma aura própria, com envergadura que o legitima socialmente.

Mas como é que se faz jornalismo crítico num ambiente encharcado de otimismo, ufanismo, celebração?

Não me refiro apenas à “conquista” da sede das Olimpíadas de 2016. O cenário atual é extraordinariamente positivo, carismático para o Brasil. A recessão econômica que foi apontada como a maior desde 1929 foi bem enfrentada por aqui. O país reagiu bem à retração econômica, aos tremores e temores. Depois de mais de 50 anos, o Brasil vai se tornar novamente sede de Copa do Mundo, e daqui a sete anos, de inéditas Olimpíadas. Encontramos reservas espetaculares de petróleo na camada do pré-sal, e o achamento de outros importantes poços tornaram o país autossuficiente neste tipo de matriz energética. As reservas internacionais são as maiores da história. A inflação está sob controle. O nível de emprego é um indicador equilibrado. Enfim, há muitos e muitos motivos para estar contagiado pelo otimismo.

É verdade, essas razões não são as únicas que permeiam nosso imaginário. Os problemas sociais são muitos, a cultura política e partidária nacional não orgulham a ninguém, as desigualdades fazem com que milhões de pessoas sofram em toda a parte. Mas não se pode ignorar o clima contagiante de otimismo que comanda o país nesses dias.

Em Copenhagen, o presidente Lula lembrou disso. Parece que o país amadureceu, cresceu, atingiu maturidade, deixou pra trás o complexo de “cidadão de segunda categoria”, o “complexo de vira-latas”, como dizia Nelson Rodrigues. E Lula é pessoalmente muito responsável por esse resgate de autoestima, pelo reencontro de um orgulho perdido em algum lugar da história. Houve um investimento particular nisso. Na Dinamarca, Lula repetiu o slogan da campanha vitoriosa de Barack Obama: Sim, nós podemos. E talvez Obama tenha mesmo razão: Lula é o cara! O presidente-operário conseguiu muita coisa em seu governo. Por impedimentos constitucionais, Lula não pode se reeleger em 2010. No entanto, todos sabem que ele quererá fazer seu sucessor. Seu legado para isso é extraordinário, e o capital político acumulado é um grande trunfo para seu candidato (ou candidata, como todos alardeiam).

Mas e o jornalismo?

O jornalismo terá que se fazer valer qualquer que seja o cenário. Na cobertura das eleições 2010, terá que se blindar do otimismo e equilibrar crítica e ceticismo com justiça, foco e interesse público. Não se trata de ser avesso ao que é verdadeiramente bom. Mas também não se pode deixar levar por celebrações de papel, polêmicas levianas. Afortunadamente ou não, para o jornalismo, bons tempos são sempre mais difíceis de cobrir do que tempos maus.





escândalo ético na imprensa portuguesa

27 09 2009

O Observatório da Ética Jornalística (objETHOS) acaba de publicar uma análise sobre o mais ruidoso caso que vem estremecendo a imprensa portuguesa: um jornal revela a fonte anônima do concorrente, um enredo que envolve ainda políticos, governo e espionagem a la Watergate.

Para ler, vá por aqui.





manifesto internet: 17 constatações de como o jornalismo funciona

10 09 2009

Paulo Querido conta como surgiu a versão portuguesa do Manifesto Internet, elaborado por um conjunto de jornalistas alemães em reação à desastrada Declaração de Hamburgo, feita por um grupo de proprietários de meios de comunicação europeus. O Manifesto Internet reacende a discussão sobre o papel do jornalismo e de jornalistas no turbulento e visceral cenário atual ultra e pós-midiático.

As 17 constatações que alicerçam o Manifesto são:

1. A Internet é diferente.

2. A Internet é um império dos media tamanho de bolso.

3. A Internet é a nossa sociedade é a Internet.

4. A liberdade da Internet é inviolável.

5. A Internet é a vitória da informação.

6. A Internet muda melhora o jornalismo.

7. A Internet requer gestão de ligações.

8. Ligações recompensam, citações enfeitam.

9. A Internet é um novo palco para o discurso político.

10. Hoje, liberdade de imprensa significa liberdade de opinião.

11. Mais é mais – não existe algo como demasiada informação.

12. A Tradição não é um modelo de negócio.

13. Os direitos de autor tornam-se um dever cívico na Internet.

14. A Internet tem muitas moedas.

15. O que está na Net fica na Net.

16. A qualidade permanece a mais importante das qualidades.

17. Tudo para todos.

Para ler na íntegra, veja o Manifesto aqui.





sala de prensa 117 na rede!

23 07 2009

Gerardo Albarrán de Alba avisa: está na rede a edição 117 de Sala de Prensa, deste mês de julho. Veja o sumário:

  • Irán: información atomizada, la nueva ola – Santiago O’Donnell
  • Hacia una historia del nuevo periodismo – Maricarmen Fernández Chapou
  • Concentración mediática y lavado de cerebros en América Latina – Jenaro Villamil
  • Notícias do Outro quando lá fora – Dinis Manuel Alves
  • La teoría de los géneros periodísticos en España: notas sobre su origen y estado de la cuestión – Ana Mancera Rueda
  • Informar y sobrevivir en Ciudad Juárez – Mike O’Connor
  • Sete anos e 45 viagens para um furo histórico – Luiz Weis
  • María Teresa Ronderos:“El periodista tiene que verificar y verificar” – Genaro Rodríguez Navarrete
  • Un aporte para pensar las formas comunicacionales de los pueblos originarios – Washington Uranga
  • CPJ Special Report Journalists in Exile 2009 – Karen Phillips
  • La comunicación antes de Colón
  • Reformas a la ley de prensa en Uruguay




ética jornalística, auto-regulação e accountability no sudeste da europa

23 07 2009

A Unesco lançou um site que oferece códigos de ética, legislação sobre mídia e instrumentos de auto-regulação do setor jornalístico. O site é voltado aos países do sudeste europeu, como Albânia, Bósnia e Herzegovina, Croácia, Macedônia, Montenegro, Turquia, Sérvia e Kosovo. Conheça Professional Journalistic Standards and Code of Ethics in South-East Europe aqui.





dicas de jornalismo investigativo

13 07 2009

Bob Woodward, um dos repórteres por trás da mais importante reportagem do século XX – a do caso Watergate -, dá dicas sobre jornalismo investigativo. São pouco mais de cinco minutos, em inglês e sem legenda, mas vale acompanhar o veterano jornalista…





os testes da coréia e o nosso telhado de vidro

27 05 2009

Homer-768566O Brasil fez coro ao resto do mundo e condenou o lançamento de mísseis nucleares pela Coréia do Norte. O Itamarati esbravejou contra a ameaça do oriente. Só que quem tem telhado de vidro não pode atirar pedra nos outros. Por aqui, vazou material radioativo em Angra 2, mas a empresa responsável pela usina diz que foi “insignificante”.

Pode até ser, mas o fato se deu faz mais de dez dias e só agora anunciam o episódio. O governo brasileiro não sabia disso? Se não, estava mal informado, o que é preocupante. Se sabia, foi mal intencionado, como aquele macaco que senta em cima do próprio rabo e zomba da cauda dos colegas…





a greve de fome de evo morales

12 04 2009

Democracias consolidadas, com instituições sociais funcionando plenamente, com alternância de poder e muita liberdade funcionam assim:

a) O presidente tenta aprovar uma lei no congresso nacional

b) A oposição tranca a pauta, vocifera e impede a votação

c) O presidente reúne suas bases, rearticula as forças, e… faz beicinho

d) A oposição dá de ombros

e) O presidente começa uma greve de fome para forçar a aprovação da lei.

Detalhe: a lei é para permitir eleições gerais este ano, e para que o presidente se reeleja. Legítimo? Inteligente? Maduro? Apelativo?

Na Bolívia, Evo Morales tomou essa importante decisão. Você acha que ele vai morrer de fome? Claro que não. Acha que vai conseguir o que quer? Não sabemos. Mas, convenhamos, é ridículo.

Política não se faz assim, com chantagem emocional, com populismo barato, à base de chá de coca, água e balas.

A última vez que um político sério apelou para o mesmo artifício foi quando Antony Garotinho também fez greve de fome em 2006 em protesto à “perseguição” que sofria da mídia, de opositores e do sistema financeiro. Na época, torci muito por Garotinho. Eu insistia: Não desista! Não coma nada! Não desista! Vá até o fim!!!!





liberdade de expressão, acesso à informação e empoderamento

19 02 2009

wpfd_2008_proceedings_160A UNESCO acaba de disponibilizar um documento que interessa a todos aqueles que pesquisam políticas de comunicação, democracia e direitos. Trata-se de Freedom of Expression, Access to Information and Empowerment of People. O volume está em formato PDF, em inglês, e tem 106 páginas.

O sumário diz a que veio:

  • Press Freedom Contributes to Empowerment
  • Press Freedom and the Empowerment of People
  • Community Broadcasting: Good Practice in Policy, Law and Regulation
  • Working Conditions of Journalists in Africa
  • Freedom of Expression, the Right to Communication: Old Challenges, New Questions
  • Towards a Third Generation of Activism for the Right to Freedom of Information
  • Supporting Democracy Requires Combating New Media Censorship
  • Access to Information
  • Right to Information and Sustainable Development
  • Challenges for Advocacy and Implementation of Right to Information Laws
  • Freedom of Information Visibility on the Development Agenda
  • A Perspective on India’s Recent Experiences

Para ter acesso, clique aqui.





sarkozy despeja dinheiro sobre a mídia

28 01 2009

Outro dia, escrevi aqui que camadas organizadas da sociedade francesa manifestaram publicamente sua preocupação sobre a qualidade da mídia local. Pois bem, não é apenas o povo quem coça as rugas da testa com o assunto. Já desde o final do ano passado, o governo também. Na semana que passou, o recado foi público e polpudo: o presidente Nicolas Sarkozy anunciou um pacote de 600 milhões de euros para o setor nos próximos três anos.

Em tempos bicudos como os nossos – quando Bush abre a torneira de 700 bilhões de dólares para bancos e financeiras, e quando Lula reduz impostos para impulsionar a indústria automobilística -, o presidente francês acena com um plano para salvar a imprensa escrita, como deixou claro no Palácio dos Champs Elisées. A operação atende pelo nome de États Généraux de la Presse, ou Estados Gerais da Imprensa. O desafio é melhorar a rentabilidade dos jornais, aumentar suas tiragens, aliviar os custos das empresas do setor e impulsionar os meios online.

Ainda é cedo para medir a temperatura e dizer qual repercussão o anúncio trouxe ao mercado francês, e por extensão à mídia européia.

O Le Monde foi bastante contido, como sempre. Em editorial, ponderou as medidas, salientando a sabedoria da presidência da República em deixar que editores e jornalistas dêem os devidos encaminhamentos à solução da crise que asfixia o setor. O jornal não comemora abertamente, mas o editorial ressalta que a mídia é também uma indústria, o que a legitimaria a receber auxílios financeiros, pode-se ler nas entrelinhas.

Já Le Figaro trouxe editorial do seu diretor de redação Étienne Mougeotte reconhecendo o “ceticismo francês” que acompanhou o setor à mesa de negociação com o governo. Mas sauda a iniciativa. Entretanto, Mougeotte não se fez de rogado: reforçou que o norte do jornal é o leitor e para quem ele trabalha. A preocupação do experiente jornalista é com a credibilidade do veículo, mas não só ele. Um comunicado da AQIT, Associação pela Qualidade da Informação, convocava esta semana jornalistas e editores a conjugar esforços para a formalização de um Conselho de Imprensa. Segundo a AQIT, um novo código deontológico e uma instância que aglutinasse produtores e usuários do sistema seriam condições essenciais para um resgate da confiança ao setor.

Os movimentos são muitos e em direções não necessariamente opostas. Os franceses estão mesmo preocupados com o assunto e tudo leva a crer que arragaçaram as mangas para enfrentar a(s) crise(s) da mídia. No Brasil, já passamos perto disso. No final da década de 90 e começo desta, a revista Carta Capital martelou em várias edições um tal plano do BNDES para salvar a mídia, notadamente a Rede Globo. A revista bateu forte, e o plano de ajuda acabou não saindo. Não porque a revista fosse tão influente assim. Mas a revista também não estava fazendo aquilo por patriotismo, mas por isonomia…

O fato é que as torneiras mantiveram-se fechadas pro setor. Pouco ou quase nada entrou de dinheiro estrangeiro por aqui, mesmo após mudarem a Constituição em 2002. Os jornalistas revisaram seu código deontológico em 2007. Mas ficamos nisso. Talvez porque a crise nas bancas esteja anestesiada pelo sucesso de jornais a preços populares ou ainda porque as redações acreditam contar com a confiança dos seus leitores.

Será mesmo?

ATUALIZAÇÃO: Alberto Dines tratou do assunto, trazendo muito mais detalhes. Vale a pena ler.





o legado de bush a obama…

20 01 2009

Frank Maia, soberbo, sintetiza a troca de faixa em Washington...

http://xinelao.blogspot.com/2009/01/obama-de-entrada.html





obama toma posse e eu com isso?

20 01 2009

Tentei não tocar no assunto já que há muita gente altamente capacitada tratando de escrever, mas é que não consegui resistir. Estamos a três horas mais ou menos da posse de Barack Obama, e a euforia generalizada me impele a deixar registrado aqui que lua de mel é bom, mas não é pra sempre.

Eu explico.

É natural que após oito desastrados anos de governo WBush, a maioria dos norte-americanos e o resto do mundo atingido por uma política externa ruim dê graças a deus pelo seu fim. Se um poste fosse eleito para substitui-lo, muita gente estaria exultante hoje mesmo. O fato de ser um jovem senador negro, conciliador, de idéias progressistas é simbólico e expressivo.

Vi muita gente vibrar bastante com a vitória de Obama. Vi gente chorar e se emocionar. Vi gente dizer “finalmente, agora, temos um presidente negro”. Em silêncio e para não estragar a festa de ninguém, eu me perguntava: “temos, quem? Não sou norte-americano…”

Obama assume hoje o maior posto do planeta, cercado de símbolos, de lendas, de esperança quase infinita. A esperança é global, de que haja um mundo melhor e que o seu maior player jogue um jogo mais limpo. Obama assume com ares de semi-deus, como salvador do globo, que possa restituir a dignidade e o respeito que os norte-americanos perderam diante da comunidade internacional nos últimos anos, que possa retirar a todos da crise economica mundial, que traga prosperidade, felicidade, etc.

Mas Obama não é deus. Ele terá que negociar internamente as saídas para o seu país, que podem ser soluções não tão boas para nós, brasileiros, por exemplo. Se ele optar por isso, tenha claro que não é nada pessoal, amigo: são negócios, apenas. Afinal, ele é presidente dos EUA e não do Brasil. Obama terá que redefinir uma política externa que tenha na ponta de lança o diálogo, a interlocução, diametralmente oposto à postura arrogante e isolacionista adotada há quase uma década. Obama terá que compor, que se associar, que ouvir, que recuar. Isto é, o poder não estará no NÃO, mas no SIM, na aceitação, na coordenação de esforços, na composição.

Já vimos isso por aqui. Em 1985, uma esperança esmagadora tomou o país com a eleição de Tancredo Neves. Era o fim de quase 21 anos de ditadura. A lua-de-mel terminou antes de começar. Tancredo morreu e não chegou a assumir. José Sarney, que meses antes era do partido que sustentava a ditadura mas que virou-casaca rapidinho, tornou-se presidente e teve que negociar novas bases para o país.

Em 2003, Lula assumiu a presidência com uma aura muito semelhante à de Barack Obama. Os anos que se seguiram mostraram que ele precisou recuar em alguns pontos e avançar para a coalizão em outros tantos. Teve que compor, que pactuar, que fazer política.

Isto é, o Salvador da Pátria não existe. Nem no Brasil, nem nos EUA. O cenário é difícil, e Obama precisará de sabedoria, de paciência, de sorte, de perícia. Como o piloto que soube pousar suavemente um avião de carreira no rio Hudson semana passada…

PS – Antes que me xinguem, antes que agentes do FBI me tirem de circulação, aviso: não estou torcendo contra, afinal ainda moro neste planeta e a sanidade da maior economia global afeta a todos, incontornavelmente. Apenas quero ver a coisa com distanciamento, com olhar crítico e umas pitadas de ceticismo. Equilíbrio, gente. O mundo real é mais complicadinho…





as últimas do pedro dória

16 01 2009

Pedro Dória não pára quieto. O primeiro repórter-blogueiro do Brasil e responsável por projetos como o NoMínimo acaba de lançar As últimas, um agregador de blogs, sites e outras traquitanas online em português e voltado para quem quer se informar sobre o Brasil.

Correspondente internacional, ele se ressentia das dificuldades de acompanhar a vida aqui pela rede. Sempre deu muito trabalho e dependeu de disciplina, ele conta. Com isso, decidiu facilitar a vida e criar um agregador do tipo AllTop, como ele mesmo declara a inspiração.

Inicialmente, Dória disponibilizou três páginas: Política Brasileira, Política Internacional e Futebol. Vêm aí Mídia e Humor, e quem sabe algo mais.

Embora As últimas junte blogs verdadeiros com blogs que não são bem lá isso (mas colunas apenas vertidas ao online), a iniciativa é muito, muito bem vinda.





obama é a maior notícia do século

4 01 2009

Deu no Comunique-se, e eu reproduzo.

Pesquisa realizada pela Global Language Monitor revela que o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, é o maior destaque da imprensa neste século. Os resultados divulgados nesta segunda-feira apontam que a cobertura da candidatura de Obama rendeu duas vezes mais textos que qualquer outro evento desde a virada do século.

“Obama não tem precedentes. Ele cativou o mundo”, disse o presidente da entidade responsável pelo estudo, Paul Payack.

Obama foi tema de cerca de 250 milhões de notícias, batendo assuntos como a guerra do Iraque, a morte do Papa João Paulo II, o ataque ao World Trade Center e o furacão Katrina.

“A magnitude nos surpreendeu. Ele teve 750.000 citações antes de ser escolhido como candidato do partido”, disse Payack.





sapatada: jornalista não pode!

17 12 2008

Eu sei que a cena ajuda a fechar com chave de ouro oito anos de um governo desastrado e desastroso. Eu sei que foi por pouco que Bush não leva uma (com um pouco mais de mira, duas) sapatadas. Sei também que o ato protagonizado pelo jornalista Muntazer al Zaidi foi comemorado por meio mundo porque ilustra com grandiloqüência a desaprovação à administração Bush.

Mas não foi certo.

Não quero polemizar à toa, mas não foi certo.

Jornalista nenhum poderia ter feito aquilo. Por questões óbvias profissionais. Al Zaidi não estava lá para atentar contra Bush, para contradizê-lo, para protestar contra a ofensiva ao seu país. Credenciou-se para a ocasião de participar de uma entrevista coletiva e deveria, isso sim, ter brigado para questionar o presidente norte-americano, para colocá-lo na parede com perguntas indigestas e até mesmo constrangedoras. Al Zaidi não estava lá como um cidadão iraquiano ou de qualquer nacionalidade. Estava numa espécie de pessoa jurídica, na condição de jornalista, de representante de um determinado veículo de comunicação, e como tal, deveria atuar dentro das quatro linhas desse jogo.

Sei que a quase-sapatada gerou um estado de euforia em muita gente. Claro que ele em si já é uma piada, e ocasionou até jogos online, onde as pessoas se desestressam acertando o presidente. Al Zaidi traz à tona uma vontade nem tão secreta de milhões, quem sabe, bilhões de pessoas de punir um governante tão despreparado, inábil e irresponsável. Mas o papel dos jornalistas está em fiscalizar os poderes, denunciar abusos, investigar, perfilar personagens, contar histórias. Ao perder a paciência ou o controle, Al Zaidi deixou seu posto de jornalista, pulou o balcão e juntou-se aos cidadãos anônimos que não têm as obrigações e deveres que o jornalismo nos impõe. Não é um lugar ruim, mas o ethos é outro.

Al Zaidi deixou de contar a história para tornar-se personagem dela. Do ponto de vista da catarse coletiva de ferrar Bush, valeu. Do ponto de vista da ética profissional dos jornalistas, não vale. Com isso, foi preso, espancado e deve responder por processo que deve lhe render prisão. As entidades que lutam pelo direito de expressão fazem protestos contra as agressões por ele sofridas, o que é natural e esperado.

Fico pensando se ele tivesse acertado o alvo. De uma certa forma, acertou: deu ao mundo a última cena de um governo ruim para os Estados Unidos, para o mundo e para a nossa história.